100 anos de Saramago



Estávamos no Verão de 94 ou 95 quando li o meu primeiro Saramago. Em viagem com colegas de faculdade - uns magníficos dias numa isolada aldeia transmontana, com passeios na natureza e banhos de rio - e eis que a leitura (que já não me recordo qual fosse) que tinha levado se esgota. É certo que o convívio e os aguerridos jogos de poker ocupavam a maior parte do tempo, mas a leitura, prazer partilhado por todos, cumpria a sua função de nos desgarrar do grupo e nos proporcionar alguns desejados momentos de reclusão.

Como dizia, estava eu nos meus 21 anos e de repente sem nada para ler. Calhou uma amiga terminar "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (a polémica obra que desde 1991 alimentava burburinho), e sem outra alternativa, confesso que até algo conformada, encetei a sua leitura.


Foi apenas o primeiro.

A este (que ainda está em minha casa nunca tendo sido devolvido - Sónia Pó, sou eu que o tenho...) seguiram-se muitos outros. Não me lembro por que ordem, mas fui-me deixando envolver por essa forma única que Saramago tem de nos apresentar novos olhares sobre temáticas tidas como certas e indiscutíveis. "O ensaio sobre a cegueira", "Todos os nomes", "O homem duplicado", "Caim", "As intermitências da morte" (o meu favorito), "A viagem do elefante", "Claraboia".

Lá pelo meio fui procurar "Terra de pecado" o primeiro romance publicado do autor, com uma grande curiosidade de poder aceder aos seus primeiros passos como escritor, na altura (1947) ainda longe do seu estilo literário tão próprio.


Saramago escrevia como quem se apodera das regas canónicas da edição de texto e da gramática, e usa (no sentido mais nobre do termo) as palavras escritas como prolongamentos do seu pensamento. As palavras, e as regras, em Saramago são instrumentos, utensílios, que podem ser brincados, explorados, apropriados e postos assim ao serviço da tradução das suas ideias em histórias contadas com mestria.

É este aspecto lúdico que destaco hoje.

Homem de fortes convicções, de ideias (umas mais outras menos) originais, de ideais conhecidos, que tem na sua obra uma indiscutível componente de critica social, de questionamento de valores, e uma vontade de cutucar as certezas, de desassossegar, de questionar o que temos como garantido, desconstruindo a ordem das coisas, parece-me a mim que teve este condão de conseguir brincar com as ideias.


Encontro no estilo/pensamento de Saramago semelhanças com o pensamento analítico. A investigação que leva a cabo nos seus livros, explorando uma ideia e levando-nos consigo nessa viagem, não pretende dar-nos respostas rápidas nem percursos lineares. Abraça a complexidade de um conceito, empresta-nos novos vértices para observarmos os fenómenos, procura com o leitor a produção de pensamento/conhecimento. Sendo maioritariamente um narrador participante, tal como o analista com o seu paciente, procura verdades transitórias e inacabadas, sempre passíveis de melhoramento, aproveitando a desorganização/desconstrução da realidade para promover o recurso à criatividade e a abertura a novas ideias.


Consumo Saramago com moderação, acontece-me isso com certos autores, pela simples razão de não querer chegar ao dia em que direi "Já li tudo de Saramago", tenho ainda, e felizmente, algumas grandes obras para ler.

Hoje, 16 de Novembro de 2022, faz 100 anos do nascimento de José Saramago.

E por isso, poisei o livro que tinha em mãos num intervalo entre sessões, porque creio, convictamente, que a literatura é um alimento fundamental na dieta de qualquer psicanalista, e quis falar-vos do que a mim me liga a este escritor maior.

E fico com vontade de voltar a lê-lo. Um destes dias mergulharei novamente “num Saramago”!


É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.” *

* Jose Saramago in Cadernos de Lanzarote (1994).