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Parem o mundo. Quero sair.


Inspirada pela comunicação que o físico Carlos Fiolhais trouxe ao último colóquio da SPP, fui levada a pensar nos protestos protagonizados por elementos pertencentes a organizações estudantis contra as políticas climáticas em Portugal. As vertiginosas alterações climáticas são hoje uma verdade impossível de ignorar, reforçada pelo filme: Uma verdade inconveniente (2006), mas que, curiosamente, muitos escolhem/preferem não ver, diminuindo a sua gravidade ou negando irresponsavelmente a sua existência, tal como alertou recentemente o Papa Francisco. Penso que é contra essa negação, ou banalização, que se têm instaurado movimentos “radicais” de contestação.


Tais movimentos têm escalado para níveis inéditos culminando em intervenções policiais e detenções. As acções perpetradas pelos jovens têm-se tornado extremamente incómodas, impedindo pessoas de usarem carros para chegar ao trabalho. Têm também usado como palco territórios escolares, fechando-os a cadeado e festejando a sua desobediência com o rufar de tambores e urros. Tiveram a audácia de cobrir de tinta verde-esperança um representante do governo responsável pelo ambiente. Parece que, em resposta às palavras condescendentes do ministro: “Pelo menos acertaram na cor, verde, que é uma cor que eu aprecio”, optaram por cobrir de vermelho-sangue uma tela de Picasso, ele próprio figura revolucionária na arte, autor da célebre obra “Guernica”.

Há cerca de 50 anos, Portugal “saía” lentamente de um longo período de obscurantismo, cujos traços marcantes penetraram indelevelmente a cultura identitária portuguesa. Também nessa altura tivemos os nossos revolucionários canta-autores, mas vemos hoje que aqui apenas chegou o eco esmorecido de movimentos mais profundos dos hippies de 1960 e do punk dos anos 1970, sob a forma de novos cortes de cabelo e o uso de mini-saia. Também observámos, ao longe, quando Rosa Parks, no Alabama de 1955, recusou ceder o seu lugar a um branco num autocarro, dando expressão ao movimento contra a segregação racial nos EUA.


Na minha adolescência, a célebre frase: “Parem o mundo. Quero sair”, escrita em paredes e cadernos escolares, expressava o sentimento de contradição aflitiva entre os nossos desejos juvenis de mudança e a incompreensão estática que encontrávamos ao nosso redor. Mas não seria ainda essa a geração da mudança. A verdade é que tal geração parecia nunca nascer, tendo surgido em vez dela a “geração rasca”, quando em 1994 um grupo de estudantes protestou veementemente contra as provas do Ensino Secundário e as propinas universitárias, que hoje perduram, e mais tarde, na época da Troika, em 2011, a “geração à rasca”, protagonista da maior manifestação apartidária, não conseguindo estancar a torrente de imigração para fora do país. Aparentemente, ambas foram inúteis nos seus esforços, não alcançando o fervor de lutas revolucionárias maiores. Parecemos esperar o nascimento messiânico de tal geração que venha, não manifestar-se perturbando o trânsito da 2ª circular mas, em vez disso, reparar magicamente. De preferência, em silêncio.


Um dos meus ídolos-escritores dos tempos adolescentes escreveu recentemente um pequeno texto: “Contra a obediência”. Diz o MEC: “Folgo muito em saber que a obediência está em queda livre. Quando eu era criança, a obediência ainda era a obsessão principal.” Não sabemos exatamente a que desobediências estará a referir-se, mas sabemos que o período do “não” vivido na primeira infância é fundamental para o estabelecimento do Eu, sob o princípio da separação Eu - Não Eu. Fica a dúvida se Portugal estará capaz de lidar com jovens que possam efectivamente dizer “Não”.


A psicanálise, como ciência, foi também ela revolucionária na sua audácia, estremecendo os cânones, falando o inconveniente, apontando a luz à escuridão. O movimento revolucionário protagonizado originalmente por Sigmund Freud fê-lo ombrear com personalidades igualmente revolucionárias, como Darwin e Copérnico. Mas serão os psicanalistas fiéis guardadores desse espírito perante o grito, impossível de não se ouvir, de protecção do mundo climático em que vivemos? Estarão os psicanalistas envoltos nas problemáticas ambientais internas de tal modo que não ousem olhar o que passa à sua volta? É verdade que começam a surgir algumas manifestações da parte da comunidade psicanalítica internacional, através da publicação de livros, discussões sobre a temática ou a constituição de um comité por parte da IPA. Mas a luta pelas alterações climáticas não deverá ser só da geração que irá ocupar o nosso lugar no futuro, deve ser de todos nós, habitantes do mesmo planeta à beira do vertiginoso declínio climático.

Thanatos apresenta-se sob múltiplas formas, por vezes no silêncio da ignorância, outras vezes no medo da contestação. Mas também na mera observação passiva de um futuro que acreditamos não poder evitar.


Imagem: Tan Zi Xi, Plastic Ocean, 2016 (Oceanic Global)

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