top of page

Valorizamos a corrupção?



A sociedade portuguesa tem sofrido abalos significativos, com casos e casinhos. Contudo, não será apenas o governo que se perturba. Somos todos nós!

É um fenómeno que se reveste de particularidades que nos merecem uma especial atenção, e que vai muito além do mero cumprimento da lei e da atuação da justiça.

Em diferentes planos da dinâmica social, temo-nos regularmente confrontado com atuações abusivas, ilegalidades ou escândalos de ética duvidosa. Algumas vincam-se pela quase total ausência de preocupação com princípios morais ou do básico respeito humano.

Ostentam-se ações oportunistas, por vezes inesperadas, capazes de evitar sentimentos de culpa. Organizam-se aquém das normas vigentes, numa façanha cega pela arrogância narcísica de acreditar que cumprem um desígnio divino e de salvação.


Em Portugal ocorreu com políticos, governantes e autoridades locais. Mas igualmente com empresários alegadamente ilustres, até então visionários, ou com outros líderes admirados e premiados até, exemplos do novo empreendedorismo e modernidade, a quem delegamos e confiamos a responsabilidade de saber assumir elevação e capacidade de projeção de um futuro construtivo. São figuras empossadas de autoridade e legitimidade, e que supostamente representam os nossos mais elevados valores, e nos servem de referência.

Sem que o saibam, muito mais do que a ilegalidade dos seus atos, têm sobretudo o poder de danificar os ideais que todos guardamos, acarinhamos e necessitamos. Servem-nos de recurso idealizado para enfrentar de forma esperançosa e criativa a dureza da realidade, e, assim, progredirmos e evoluirmos.


Na generalidade, a noticia que põe a descoberto tristes realidades, algumas seriamente degradantes, além de raiva e irritação, promove desamparo, e, por vezes, é capaz de instalar uma quase orfandade dolorosa, que nos lesa e furta a esperança de que tanto necessitamos.

Não basta somente fazer-se justiça.

Sem disso terem total consciência, estes representantes, pelos cargos que desempenham, são como que depositários dos resquícios da autoridade parental de muita gente incógnita. Todavia, através dos seus atos corruptos ou perversos, transformam afinal este símbolo da proteção e resguardo que representam, num objeto maligno, não confiável e devastador, que dolorosamente descobrimos estar a usar-nos e não a cuidar ou tutelar as nossas vidas.


Restaurar este dano é especialmente difícil. Será talvez por isso que, por exemplo, os últimos apoiantes de Trump, parecem recusar psiquicamente um confronto com uma verdade que é, só por si, profundamente decepcionante. Negam factos, num equilíbrio mental assente no desespero, e que exige um esforço e sofrimento, e que no limite se manifesta através de atos violentos, por vezes dirigidos a si próprios.


Quem, num primeiro momento, corajosamente expõe fatos destes e implica líderes corruptos é apelidado muitas vezes de traidor, denunciante, e torna-se um alvo de evitamento coletivo ativo, num movimento de repulsa grupal, favorecendo o instalar de intensa culpa (de atraiçoar a representação das figuras parentais de todos) e, por vezes, de acções de perseguição ou enxovalho público.

Suscita essencialmente vivências de perda, no próprio, mas em todos os implicados que passivamente assistem à queda de um referencial admirado: perda de conforto e de estima, perda de sensação de estabilidade e segurança.

A via do silenciamento é, alternativa ou complementarmente à anterior, uma opção tentadora e cómoda: emudecer-se, com o receio de se confundir com o delator, interpretando-o como um mero exibicionista ou como alguém que infantilmente decidiu opor-se e desafiar as figuras de autoridade, e alcançar protagonismo.

A dinâmica social, que então se organizará, mobiliza-se frequentemente para, também ela, reforçar o seu próprio silenciamento, reagindo espontaneamente num ataque intenso à verdade inquietante e reveladora.

Todos, sem excepção, vivem um enorme esforço para preservar a pacificidade do comodismo, protegendo-se de se abrir à inquietação, e ao desnorte angustiante e revoltante de se descobrirem abusados, enganados e manipulados.

Recordar-se-á o leitor da estupefacção e reação inicial desencadeada pela denúncia recente de uma jovem médica interna no Hospital de Faro. Através da intervenção de uma entidade idónea e independente, comprovou-se alegadamente que a jovem profissional tinha razão. No entanto, tudo o que a jovem conquistou com tal denúncia resultou num expressivo isolamento, ostracização, ameaça, desconfiança e angústia que culminaram na triste interrupção da sua carreira. Questionamo-nos: como foram tal acto(s) até aí silenciado(s)? Ninguém sabia, falava ou se implicava? Porque é que mais nenhum profissional pareceu expressar qualquer eco de incómodo face às graves situações denunciadas? Como foi possível evitar o encontro com uma verdade brutal e incómoda?


Sim, desvalorizamos a corrupção! Valorizá-la, confrontá-la, indignarmo-nos contra ela é laborioso internamente porque vai muito além da ação judicial. É um trabalho essencialmente psíquico, difícil e exigente, que nos desafia o ideal infantil de reservar confiança e esperança nas figuras que representam autoridade e proteção. Afirmar simplesmente que o governo nada faz, reclamar uma mera mudança de governante, ou condenar empresários pode realmente ser justo, importante, pertinente e necessário.

Mas falta ainda assumir a nossa responsabilidade, manifestá-la criativamente e actuar em conformidade.


Imagem: Gordon Johnson

Comments


bottom of page