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Uma reflexão sobre o(s) abuso(s) a partir de “Ela Disse”


She said' (Maria Schrader, 2022) narra a história de um trabalho jornalístico de 2017, trabalho levado a cabo por Jodi Kantor e Megan Twohey - ambas exercendo funções no The New York Times -, que incidiu sobre a conduta de Harvey Weinstein, um dos mais poderoso produtores de Hollywood, cujo comportamento para com inúmeras mulheres que com ele trabalharam (actrizes, produtoras, assistentes) se caracterizou por desrespeito, abuso, violação, intimidação e perseguição, crimes perpetrados ao longo de décadas com a conivência de toda uma indústria.


A obra de Schrader conta com uma eficácia narrativa inequívoca. O argumento encontra-se bem estruturado, os desempenhos são competentes (destaque para Carey Mulligan, na pele da jornalista Megan Twohey), o ritmo é cativante e a cumplicidade do espectador é captada desde os primeiros minutos, sobretudo graças ao clima intimista, de autenticidade e espontaneidade, que envolve as declarações das vítimas de Weinstein, maioritariamente mulheres traumatizadas e profundamente vulneráveis.


A meu ver, o grande mérito de 'She said' reside no modo como a realidade do abuso, em sentido lato, é retratada.

Sem recorrer a artifícios dramáticos outros, esta obra mostra como operam e se perpetuam estas particulares lógicas de poder, que são fruto de uma dinâmica selvática, psicopática, sádica e desumana.


Em oposição ao poder da natureza - o forte domina o fraco, pelo uso da força, subjugando-o -, ao longo da História, vimos erigir-se a força da Razão e dos Valores; por seu turno, estas forças também foram cruzando e enformando o Direito.


Infelizmente, no século XXI, ainda deparamos com inúmeras realidades que ilustram a torpe tentativa de perpetuar uma lógica de poder ancestral, primitiva e natural - a invasão da Ucrânia pela Rússia, cuja sofisticação do sadismo e destrutividade se vai espraiando, é disto mesmo um exemplo (quando escrevo estas linhas, atónito, verifico que a derradeira expressão da criatividade aniquiladora do Kremlin consiste em privar as populações civis ucranianas de aquecimento, quando nos encontramos a semanas escassas do rigoroso Inverno começar…)


Considero que existem inúmeros fenómenos que exprimem o abuso, sendo o bullying e o assédio (moral, sexual, etc) alguns dos que, nos nosso dias, contam com maior visibilidade, vindo a conquistar o interesse crescente de académicos, clínicos e outros profissionais, para além de suscitarem o desvelo de muitos de nós. O interesse por tais fenómenos não constitui moda passageira, desenganemo-nos! O que esta saudável curiosidade revela, antes, é que o que era tolerado deixou de o ser - os castigos corporais, por exemplo, deixaram de constituir práticas educativas recomendáveis, por se ter concluído que não educam, ao invés, destroem e aniquilam as vítimas.


Grosso modo, o poder natural do forte sobre o fraco, nas suas expressões bullying e assédio, apoia-se em três aspectos: a desproporção evidente da força do agressor (face a uma vítima mais frágil), o sadismo de quem agride (a intenção malévola de quem age contra outrem) e o carácter reiterado do comportamento hostil. De facto, em regra, quem assedia sabe estar a investir contra alguém dotado de menos robustez, tem plena consciência da natureza torpe dos seus actos e intenções, e mantém este padrão de comportamento com aquela vítima específica.


Não tenhamos ilusões quanto aos tempos em que vivemos. Os movimentos extremistas e populistas crescem e avançam por todo o mundo, manipulando e conquistando adeptos e o que tomamos por adquirido - a democracia, a força da Lei - corre riscos quotidianamente, sobretudo no mundo considerado civilizado!


Encarar os fenómenos de bullying, assédio ou outra qualquer expressão do abuso, sem nos atermos ao que é inequivocamente factual, refugiarmo-nos na ‘grande complexidade dos fenómenos que impede tomadas de partido porque não há bons e maus’ constituem formas de legitimação da conduta psicopática abusadora. Os contextos (históricos, nomeadamente) existem, sim, e devem ser tidos em consideração, sobretudo se almejamos uma compreensão mais ampla e vasta, mas daí a perdermos a visão objectiva - identificação de um comportamento hostil, reconhecimento de quem agride e de quem é vítima do comportamento agressivo - coloca-nos em sintonia com a acção danosa. Se as mulheres envergam mini-saias e nos provocam ou se a Ucrânia provocou a Rússia, em que medida isso justifica acções bárbaros e de uma violência inaudita por parte de - respectivamente - pessoas ou nações?!


Regresso a ‘She said’ para sublinhar o derradeiro mérito do filme, que consiste em suscitar a nossa empatia.

Ao assistir aos relatos das inúmeras mulheres agredidas torna-se muito difícil não entender o sofrimento de quem é sujeito a um tratamento abusivo, desrespeitador, torpe, cobarde e canalha.

As universidades, as escolas, as igrejas, as famílias e inúmeras outras instituições foram, ao longo de séculos, palco da prática reiterada de comportamentos abusivos de toda a sorte. Está nas nossas mãos e mentes a possibilidade de inverter estes desvios, que tanto mal trouxeram aos mais desprotegidos e frágeis


E, já agora, não nos entretenhamos a descredibilizar o papel determinante de movimentos de luta contra o abuso (#MeToo e outros) ;)


Haja Palavra denunciante, haja Razão e que se respeite a Lei!

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