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Uma dor com nome



Ninguém onde pousar a dor, a confusão, a raiva.

Só silêncio, solidão e medo ( Diário de A.)


Numa altura em que as línguas se soltam, se quebram muros de silêncio, em que muitas pessoas ousam falar sobre os abusos sexuais que sofreram na sua infância por parte de familiares, padres, ou outros adultos próximos, podemos imaginar a extensão do sofrimento indizível, oculto por impossibilidade de o trazer à palavra, de o pensar, ou por pactos de silêncio.


A Psicanálise, encontro com o infantil no adulto, espaço de desocultação, de palavra e de liberdade, é hoje chamada, como o foi no passado e sempre, a sentar-se ao lado dos que procuram escuta e entendimento para o seu sofrimento e, também, a contribuir com o conhecimento que fomos construindo sobre as consequências do traumatismo na vida psíquica da criança e do adulto, para a sua prevenção, para um new beginning (M.Balint).


Se o peso da realidade traumática ficou como que adormecido durante os anos da neurótica, com o abandono por Freud da teoria da sedução, é a Sándor Ferenczi que devemos a audácia de ter trazido para a Teoria e para a Clínica Psicanalítica a importância de não subestimarmos a realidade do trauma na psicogénese das neuroses, como escreveria numa carta a Freud a 25 de dezembro de 1929, a propósito da visão de alguns dos seus colegas.


Retoma-o também em 1932, na Conferência ao XII Congresso Internacional de Psicanálise em Wiesbaden - As paixões dos adultos e a sua influência sobre o desenvolvimento do carácter e da sexualidade da criança - “(…) Pude confirmar a hipótese já enunciada de que nunca será demais insistir sobre a importância do traumatismo e, em particular, do traumatismo sexual, como factor patogénico. Mesmo as crianças pertencentes a famílias respeitáveis e de tradição puritana são, com mais frequência do que se ousaria pensar, vítimas de violências e estupros. São ora os próprios pais que procuram dessa forma patológica um substituto para as suas insatisfações, ora pessoas de confiança, membros da mesma família (tios, tias, avós), os perceptores ou pessoal doméstico, que abusam da ignorância e da inocência das crianças. A objeção, a saber, de que se trataria de fantasias da própria criança, ou seja, mentiras histéricas, perde lamentavelmente a sua força, em consequência do número considerável de pacientes, em análise, que confessam terem eles próprios mantido relações sexuais com crianças.”


No seu Diário Clínico (1932), Ferenczi descreve, a propósito das pacientes que segue em tratamento, como, na sequência dos traumas vividos na infância, à primeira vista o indivíduo é composto por várias partes: à superfície, um ser vivo capaz, ativo, com um mecanismo bem ou até demasiado bem regulado; por detrás, um ser que faz por não querer saber mais nada da vida; por trás deste Eu assassinado, encontram-se as cinzas da doença mental anterior, revividas a cada noite pelo fogo deste sofrimento e a própria doença, como uma massa afetiva separada, inconsciente e sem conteúdo, que permanece clivada do ser humano propriamente dito.


Continuamos ainda hoje a assistir entre os profissionais da relação, por ignorância, por adesão a velhos axiomas, ou por defesas psíquicas que protegem do encontro com a dolorosa verdade, a casos em que uma sobrevalorização hipertrofiada da «fantasia» conduz a distorções e ao silenciamento da realidade traumática vivida pela criança, com o efeito trágico do desmentido, da retraumatização e de uma imensa desproteção, num momento absolutamente crucial da vida infantil. Em Confusão de línguas entre os adultos e a criança, Ferenczi descreve que o que é realmente insuportável para a criança, em caso de abuso, e o que produz danos duradouros, é precisamente o abandono emocional num momento de grande angústia. E desenvolve esta ideia explorando o papel do outro progenitor, cúmplice do abusador, na medida em que nega que tenha havido abuso ou a sua importância, ou que a criança tenha sido a vítima. Ferenczi acreditava que as crianças poderiam lidar com praticamente qualquer experiência, desde que houvesse alguém com quem pudessem compartilhar o seu medo e a sua dor. Mas quando até o outro progenitor lhe vira as costas, quando insiste numa realidade que contradiz as suas próprias percepções e lhe pede que não veja, que não fale, que não saiba, então a criança vê-se insuportavelmente sozinha com a sua experiência traumática. Diante do abuso, sofre uma dor intensa e precisa de encontrar um meio de esconder o trauma e de se esconder do trauma, de fazê-lo desaparecer. O que lhe resta é a clivagem psíquica, a fragmentação e a confusão. Nas palavras de Ferenczi, as crianças sentem-se física e moralmente sem defesa, a sua personalidade é ainda demasiado frágil para poderem protestar, mesmo em pensamento, contra a força e a autoridade esmagadora dos adultos que as sideram e emudecem (aquilo a que os abusadores chamam de “consentimento”).


Como psicanalista, como não escutar com uma imensa tristeza, as palavras da fundadora da Associação Internacional de vítimas de Incesto, Isabelle Aubry: (…) “Assisto a conferências, simpósios e outras palestras em que a pretexto de um “complexo de Édipo”, é fácil culpar as próprias crianças pelo incesto… exatamente a defesa do meu pai ... e recordo os silêncios do meu psicanalista ao meu lado “tem a certeza que não fantasiou com o seu pai ? ", tudo isto me deixava enjoada. Quando finalmente deixei o seu gabinete, após seis anos de análise, estava num estado mais lamentável do que quando entrei.” (Isabelle Aubry, La première fois, j’avais six ans… Pocket, 2010)


A observação clínica mostra-nos como um traumatismo age em vários tempos, sendo o primeiro - o da infância - aquele em que se passa alguma coisa que a estrutura psíquica não é capaz de integrar e que aí permanece num estado clivado; que este acontecimento pode ser depois despertado por um acontecimento posterior e desencadear a patologia; sabemos também que os danos, o destino e potencial mais ou menos patogénico de um acontecimento traumático se relacionam com a forma como o acontecimento é organizado internamente pelo indivíduo - que quanto mais frágil é a sua estrutura mais sujeita está ao risco de adoecer - e ainda, com o suporte que o indivíduo encontra no seu envolvimento próximo. Na história e no devir de um traumatismo enlaçam-se o intrapsíquico e o social, o real e o imaginário. Um terceiro tempo do traumatismo, a retraumatização, poderá acontecer quando surge de novo um desmentido ou quando a escuta não é verdadeira.


Escreve Ferenczi no seu Diário Clínico (1932) que “uma análise em profundidade (traumatogenética) é impossível se não se pode oferecer condições mais favoráveis (em contraste com a situação que existia quando do traumatismo primitivo), pela vida e pelo mundo circundante e, principalmente, pelo analista”.


Cuidemos todos nós de criar, nos nossos lugares de vida e de escuta, condições mais favoráveis, em contraste com as situações que existiam quando do traumatismo primitivo.


O que me assalta e paralisa são coisas imobilizadas no tempo. Anseio por alguém com quem possa falar, deixar repousar o passado. O meu corpo. Eu, finalmente em paz, no presente, livre para amar e sonhar ( Diário de A.)


Imagem: Consolation, Edward Munch, 1907

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