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Um Menu de difícil digestão




Apesar de podermos ver no canal da Disney, de estar etiquetado como um filme de comédia-terror, e de no cinema estar indicado para maiores de 12 anos, “O Menu” (Mark Mylod, 2022) está longe de ser uma comédia, nem é o típico filme de terror pleno de zombies e seres maléficos, e sobretudo não é para crianças ou jovens. Possivelmente o “humor negro” que o carateriza terá dado origem a uma colagem arbitrária de humor a comédia e negro a terror. Mas não faz rir, nem provoca medo, antes um imenso sentimento de estranheza, de horror, perante a violência desconcertante que a realidade humana pode mostrar - a vingança requintada, e a destruição como remédio para uma impossível transformação.


Um grupo de pessoas, ricas e famosas entra num barco em direção a uma ilha onde vai poder degustar um requintado, imperdível, jantar feito por um famoso Chef de cozinha. Tão único que vale os mais de mil dollars que só um grupo muito restrito de pessoas pode trocar por um jantar, pessoas famosas, ricas, mergulhadas num mundo materialista, a quem aparentemente nada falta, mas também nada preenche, à procura de novas sensações, através da sensorialidade do paladar: um famoso ator de Hollywood acompanhado pela sua amante (que, por sua vez, lhe rouba dinheiro), uma famosa crítica gastronómica acompanhada de um subordinado disposto a tudo para ganhar visibilidade, três colegas de trabalho ligados à Alta Finança que enriquecem à custa de corrupção, um jovem académico cheio de manias e snobisses intelectuais, acompanhado por uma mulher que percebemos depois, é prostituta, e a única que não pertence a este mundo materialista e moralmente corrupto.


A primeira parte do filme faz-nos entrar no mundo da estética e do luxo: uma ilha deserta, uma criada oriental, de sorriso oscilando entre a submissão e a hostilidade, que os espera e encaminha para uma casa de arquitetura moderna, bem na moda, entrelaçando o cimento afagado e as ripas estilizadas de madeira, uma grande janela que permite aos clientes mergulharem no ambiente selvagem e imaculado da ilha que por ali entra adentro.

Gradualmente, no decorrer do jantar, vai-se instalando um ambiente de suspense, à medida que os diferentes pratos requintados vão surgindo, permitindo ao espetador saborear os detalhes da vida das personagens. Um amuse bouche feito de sensações de mar e espuma, emerso em conceitos intelectuais ligados à natureza e à sustentabilidade, um “prato de pão sem pão” (só molhos) porque como explica o chef “O pão é alimento dos pobres”, obrigando os clientes a degustarem a frustração do estâmago vazio e a verem-se no espelho do “enfeite sem a substância” que parecem ser as suas vidas. Gradualmente compreendemos a relação mentirosa, utilitária, que cada um dos personagens parece ter uns com os outros, colocando em contraste com a relação militarizada e repressiva do chef com os cozinheiros, que trabalham incansavelmente e respondem a cada ordem com um grito coral: “Yes chef!


Os pratos, também eles vão adquirindo um tom psicológico e revelando verdades negadas, como o vinho “com travo a nostalgia e arrependimento”, ou o prato “Memória” (coxa de frango com uma tesoura espetada) acompanhada pela revelação pelo Chef de uma memória da sua infância: em criança espetara uma faca de cozinha na perna do pai bêbado para o impedir de estrangular a mãe com o fio do telefone; ou “O Caos”, prato confecionado pelo subchefe que, segundo o chef, queria tomar o seu lugar, evidenciando a rivalidade paterna, aqui resolvida com o suicídio do subchefe com um súbito e brutal tiro na boca acompanhado de esguichos decorativos de sangue... Um espetáculo sanguinário, ao qual se vão suceder muitos outros, sempre com o requinte que um menu de degustação exige.


Um filme que desconcerta (tira o concerto, desarruma), que nos coloca perante o estranho, o absurdo. Que mistura requinte e estética com uma crueza sem limites, que vira espetadores e clientes ao contrário. Mas estranhamente, se nós espetadores assistimos paralisados, estranhados, desconfortáveis com aquele cenário, os clientes do restaurante que gradualmente se apercebem de que vão morrer no final do jantar, também nos desconfortam pela sua reação de aceitação/adaptação gradual, do terror que os paralisa ou da indiferença afetiva. Apesar do sangue e das mortes que se sucedem os clientes continuam a comer, como se a sua moral também sucumbisse, como se tivessem perdido a estranheza e a repulsa que agora nos invade a nós espetadores.


Este filme parece vir na sequência de outros do mesmo género, todos premiados: “O Quadrado” (Ruben Östlund., 2017), “Os Parasitas” (o filme sul coreano de Bong Joon Ho, 2019) “O Triângulo da Tristeza” (Ruben Östlund., 2022), estranhamente intitulados como comédia-terror, quando na realidade são antes de um absurdo/horror, como se virassem do avesso o humano, a sua moral, a empatia, e revelassem o seu lado destrutivamente animalesco.


De comum têm o ataque à desigualdade social, ao materialismo vazio de um mundo capitalista amoral, a crítica aos valores capitalistas da sociedade ocidental. Mas aqui não é a luta de classes através da revolta dos fracos sobre os fortes, mas a sua vingança. Não é a sua denúncia, ou a zanga, ou a competição, a luta contra o inimigo em nome de um ideal ou da sobrevivência, característicos de um funcionamento mais evoluído. É a vingança e a destrutividade.


Das três formas de reação à falha do objeto (externo e posteriormente interno) - revolta/zanga, depressão/abatimento, vingança/inveja -, esta última é a mais primitiva e revela a impossibilidade de aceitar/transformar o aspeto traumático. O revoltado zanga-se na esperança de mudar o objeto; o deprimido aceita a falha e reconhece a importância do objeto, primeiro passo no caminho da elaboração da mesma ("Posição Depressiva") e da transformação das feridas no self; o invejoso e vingativo, incapaz de aceitar a falha do objeto e o dano no self, procura destruí-lo.


A cena final do filme é uma morte coletiva através de um creme flambê, com “marshmallow, chocolate, bolacha, clientes, empregados e restaurante”, uma cena regada com petróleo, e consumida num fogo purificador, ao estilo de suicídio coletivo numa seita. O mau objeto, incapaz de ser transformado porque a dor do reconhecimento da sua importância e dependência para o sujeito é demasiado dolorosa, tem de ser destruído.

Só se salva a prostituta que, descobrindo fotografias da vida do chef, acedeu à sua história, ao seu mundo interno, ao seu sofrimento e inveja ligados à sua origem humilde. Critica a sua comida denunciando o seu Eu omnipotente e pede um vulgar cheeseburger, primeiro trabalho do chef, valorizando o seu passado vulnerável. Pede para levar o restante para casa, abrindo assim caminho para a saída da loucura coletiva instalada na sala.


O que nos dizem estes novos filmes sobre a violência do século XXI? Onde estão as qualidades humanas que vemos em muitos dos filmes ditos “violentos”, como por exemplo nos filmes de guerra, onde o sangue se faz acompanhar de sofrimento, compaixão, dor, empatia? Que Thanatos é este que carece de transformação?

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