Sobre o “Dolce Far Niente” – uma conversa com David Rodrigues


Nesta recta final de Julho, prestes a entrar em Agosto, meses escolhidos pela maioria dos portugueses para as suas férias, decidimos puxar a conversa com o David Rodrigues. Muito podíamos dizer sobre este Professor, escrito assim com “P” maiúsculo, desde a sua carreira universitária ao lugar que ocupa agora como Conselheiro Nacional de Educação, passando pelo envolvimento em várias instituições internacionais que o levaram a fazer transbordar a paixão pela educação além fronteiras, ou por curiosidades sobre outras chamas que o alimentam como a poesia – com vários livros publicados - ou o Jazz – é co-fundador dos Dixie Gang, uma banda de jazz tradicional que em 1991 começou a actuar no Ritz Club em Lisboa e desde então ainda não parou, com CDs gravados e muita música.


Habituado que está a pensar a educação, de uma forma verdadeiramente integrada e inclusiva, sabendo que a construção do humano ultrapassa em muito o universo da escola, era a pessoa ideal para pensar connosco o que acontece nas pausas lectivas.


E por isso, metemos conversa!


Inês Ataíde Gomes (IAG) – Boa tarde David,

Estamos com as férias à porta, as escolas já encerradas, e muitas crianças em actividades de tempos livres, e queria falar consigo sobre algo aparentemente esquecido e estranho para as novas gerações: o “Dolce far niente”. Acha que é mesmo assim? As crianças e os jovens de hoje têm dificuldade com o “não fazer nada”?


David Rodrigues (DR) – Têm, têm. Mas não é por causa delas: é mais por causa dos adultos que ficam com urticária cada vez que vêm uma criança a "olhar para ontem" ou a brincar. Em geral (sim, porque há exceções...) os adultos têm a ideia que a criança é um cofre vazio que tem de ser atulhado de experiências. Ora, sabemos hoje que, mais do a quantidade, é importante a qualidade e sobretudo a contextualização, o tempo, a valorização do lugar destas experiências para que elas tenham tempo de se enraizar na vida da criança. Eu diria que a experiência é como a culinária precisa de levar o seu tempo para fazer sentido, para se ligar com outros ingredientes. Talvez tenhamos que ajudar os adultos para se lembrarem do grande prazer que é "não fazer nada de jeito", brincar, ver as nuvens a passar, jogar cartas, dormir a sesta, passear, olhar,...


IAG – Como se os adultos se tivessem esquecido da sua própria infância. Ou desses sabores únicos dos lentos cozinhados das avós. Ficamos todos na aquisição desenfreada de conteúdos. Parece que “o diferente” deixou de ter lugar (o não competitivo - o eu também fiz “isto” ou sei mais “daquilo”). É perder tempo. Temos dificuldade em alternar ritmos, não temos?


DR – É verdade Inês! O Edgar Morin falou muito que o valor dominante dos tempos que agora vivemos é a complexidade. E vivemos num mundo muito complexo e contraditório. Em relação ao "ritmo" fazemos a apologia do "nosso ritmo" das diferentes identidades, " da celebração da diversidade" do respeito, mas por outro lado falamos do que fica bem e fica mal, da importância da norma, dos rankings, da competição. Se isto é muito difícil mesmo para adultos experimentados...que fará para as crianças! Talvez lhes transmitamos a ideia que só nos podem agradar se forem permanentemente ativas, bem sucedidas, sempre "em cima do acontecimento". Sempre achei que para educar é melhor fazer do que falar, isto é, dar a nossa vida como tutor da vida das pessoas que educamos. Daqui que quando falarmos sobre a Educação estamos a falar sobre valores muito próprios. Sabes? Às vezes tenho ideia que as crianças são alarmes para a vida das sociedades: porque aprendem rápido e por vezes amplificam os valores sociais mais dominantes.


IAG – O David fez-me lembrar o João dos Santos, não me recordo das palavras exactas, mas de como dizia que as crianças partem do colo, dos braços dos pais, que seria aí que aprendiam os seus valores e que daí poderiam partir em liberdade para imaginar, sonhar, explorar.

Gosto da ideia de “pelo sonho é que vamos”


DR – João dos Santos era um sábio... O tempo livre tem muito a ver também com o como é que podemos e sabemos lidar connosco sem os "fusíveis" da agenda e dos compromissos. É também por isso que por vezes fugimos do tempo livre: ele revela-nos muitas coisas (às vezes demasiadas) sobre nós. Quantas famílias "harmoniosas" soltam as fúrias durante o "tempo livre"? Daqui que seja importante acarinhar os momentos em que podemos estar sós achando que somos uma boa companhia. Cuidar dos vazios "livres" que há em nós é uma boa parábola para a vida. Escrevi um texto que talvez possa explicar melhor...


Sem espaços vazios?

Isso são as pedras.

Nos vazios que há na gente

cabe o ar, o sangue, a comida,

abrem o cheiro, o sentir, o ouvir.

Abrimos vazios

que só podem ser cheios com abraços.

Se não houver espaços vazios,

onde vai caber o outro?

IAG – O David tem passado os seus últimos anos com grandes responsabilidades que lhe têm trazido (obrigado e proporcionado) muitas viagens por esse mundo fora. Tarefas que sinto a serem realizadas com entusiasmo.

E nas férias? Muda o registo? Há espaço para este “Dolce far niente”?


DR – Bom, aqui tenho que confessar que aquele elan do "mês de férias" deixou, para mim, de ser atrativo. Procuro, como diz o slogan publicitário "fazer férias, cá dentro". Para mim as férias é um fim de semana grande e fora do meu lugar habitual, é um jantar com amigos, é uma visita a outro país, é ir ler o jornal à praia bem cedinho, férias é tocar com a minha banda de jazz tradicional... Acho que estar de férias é sobretudo um estado de espírito e tem pouco a ver com o lugar e com a duração. Claro que há lugares e pessoas que nos transportam para férias. Esses são aqueles lugares que nos metem mais ar nos pulmões e aquelas pessoas a quem temos o privilégio de chamar amigos. (Agora mesmo estou a sair para uma semana "destas").


IAG e DR – Boas férias!