Paula Rego (1935-2022), Pintora de (da) Intensidade



No passado dia 8 de Junho de 2022 deixou-nos uma das maiores artistas portuguesas contemporâneas. 

Paula Rego dizia que a beleza grotesca é beleza também.

A beleza do seu grotesco manifesta-se pela força do seu traço, o uso expressivo da escala das suas figuras que rompe com o convencional, o modo como pinta as suas (que passam a ser nossas) emoções, a forma como retrata o que é difícil de ser verbalizado. Com ela, o negro tem expressão de cor. A sua pintura perturba porque revela o que é de mais íntimo, aquilo que nem nós, por vezes, queremos reconhecer como sendo nosso, como algumas coisas feias que habitam no nosso interior. Como escreveu Eco, no seu livro “História do Feio”, fazendo referência ao termo Unheimlich de Freud, inspirado em Schelling, é perturbante aquilo que deveria permanecer escondido mas aparece. O tal estranho familiar. O que evoca, no seio de uma certa nebulosidade, uma sensação confusa do reconhecimento e suspeição daquilo que conhecemos ao mesmo tempo que não o reconhecemos. A inquietação e angústia de um segredo trazido ao de cima. O que nos pode fazer dizer “que esquisito”, sendo tal estranheza fruto do retorno do recalcado.

O impulso criativo tenta transformar a vida efémera numa imortalidade pessoal. Na criação, o artista tenta transformar a morte em vida (Otto Rank, 1932/1989). Numa das entrevistas a Nick Willing, este diz-nos que a mãe só queria pintar o que lhe apetecesse. Tal uma criança. Sendo a grande artista que foi, não era esse título a sua prioridade. Antes de mais, retirava prazer em desenhar os seus bonecos (assim referia-se ela aos seus personagens). Fez uso da sua arte para representar as histórias ouvidas desde a sua infância, a história com H, as suas histórias pessoais, a história dos seus fantasmas. Não sabemos se aspirava eternizar-se, como nos diz Otto Rank, mas o seu trabalho transformou-se numa vasta obra que ficará de facto para sempre.

A sua pintura representa tudo o que é humano, desde o ódio ao amor. Mesmo quando pinta animais, estes assumem qualidades de complexidade psicológica humana. Olhemos a crueldade e a violência de uma traição, presente por exemplo na obra A Mulher do Macaco Vermelho corta-lhe o rabo (1981). A ínfima fronteira entre o animal e humano que se fundem na “Mulher Cão” (1952), onde a raiva ressalta na posição de ataque de uma mulher de gatas, transfigurada num cão, de dentes afiados. Os instintos primários, ou melhor, as forças pulsionais são reveladas. Desde Freud que é sabido que as manifestações artísticas são fruto do ímpeto da vida pulsional.

Muito sensível às questões do feminino, as mulheres são sobejamente presentes na sua obra. Representam temas da esfera política, tal como as pinturas da série do Aborto de 1998, altura do referendo, obras intencionalmente Sem Título. Figuras robustas mas que contam pictorialmente histórias tristes e de grande conflito. Espelham intimidade e dessa, aspectos indizíveis. Invoquemos outra série, A Possessão (2004), Obediência (2000), Branca de Neve Brincando com os Troféus do Pai (1995), A Filha do Polícia (1987).

Paula Rego deixa um legado em cada uma das suas obras, cada uma das suas narrativas. Como psicanalistas, podemos retirar um infindável conteúdo interpretativo perante a riqueza da história das mesmas. Não cabe num espaço limitado enunciar a extensão daquilo que nos deixa. Goste-se ou não, nenhuma das suas peças são indiferentes, quando se pousa o olhar de quem as vê com olhos de ver e espírito de sentir.


Imagem: "O Anjo" (1988)



Bibliografia


Eco, U. (2007). História do Feio. Algés: Difel.


Casa das Histórias & Fundação D. Luís (2019). Os Anos 80 nas Mãos de Paulo Rego.


Rank. O (1989/1932). Art and Artist- Creative Urge and Personality Development. New York: Norton & Company


Rosengarten, R. (2009). Contrariar, Esmagar, Amar: A Família e o Estado Novo na obra de Paula Rego. Lisboa: Assírio & Alvim.