Os nossos Monstros



São descritos, desde que há palavra escrita, monstros terríficos, personificando todo o mal que o desconhecido encerra.

Antes da escrita, teríamos já a tradição oral, as histórias contadas e repetidas nessa necessidade tão nossa (é do humano que se trata) de nomear, visualizar, tornar concreto, para assim ganhar (a ilusão de) controlo.

Dos mitos, aos contos de fadas, os seres mágicos que os povos do mundo inventaram são de uma riqueza que me maravilha.


Recentemente fui visitar o Convento Madre de Deus em Lisboa (onde está hoje situado o museu do azulejo).

Numa das paredes laterais da igreja do convento (na parte reconstruída nos séc XVII e XVIII), num cantinho que provavelmente me teria passado despercebido não me tivesse eu sentado num banco por uns momentos a observar todo aquele “ouro sobre azul”, encontrei este “monstro” (fotografia).

De imediato me vieram à lembrança os monstros do livro “Onde vivem os monstros”1 de Maurice Sendak (título original - “Where the Wild Things Are”). Nesse livro infantil magnífico uma criança – Max – é chamada de “monstro” devido ao seu mau comportamento e mandada para o quarto sem jantar, entramos de seguida numa viagem pelo fantástico mundo onírico, no confronto com as projeções internas transformadas em terríveis criaturas que Max progressivamente teme, aceita e domina, para só então poder regressar a casa.


Em 2009 foi lançado um filme 2 dirigido por Spike Jonze baseado no livro de Maurice Sendack (1963). O filme, a meu ver, introduz demasiados novos elementos, complexizando a história que na versão original era muito simples e com uma cadência encantatória de frases curtas. Tornou o campo saturado, se quisermos recorrer ao conceito Bioniano. Por seu lado, no livro, o espaço deixado ao sonho, à identificação, e ao fascínio, funciona ainda hoje como lugar ideal para a criança poder projectar livremente os seus próprios fantasmas internos.


Mas voltando ao azulejo, e às associações que me despertou. Seguramente que Maurice Sendak nunca visitou a igreja do convento de Madre de Deus, mas estamos a falar dos mesmos monstros que habitam as entranhas dos homens. Seja em que século for.

Fez-me mergulhar nesta ideia de inconsciente colectivo. Do caldo cultural comum em que todos estamos submersos. E da herança arcaica e filogenética que transportamos connosco.


Freud, em a Interpretação dos Sonhos (1900), consegue transpor em palavras claras esta ideia: “o sonhar é, em seu conjunto, um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma revivescência de sua infância, das moções pulsionais que a dominaram e dos métodos de expressão de que ele dispunha nessa época. Por trás dessa infância do indivíduo é-nos prometida uma imagem da infância filogenética - uma imagem do desenvolvimento da raça humana, do qual o desenvolvimento do indivíduo é, de facto, uma recapitulação abreviada, influenciada pelas circunstâncias fortuitas da vida. Podemos calcular quão apropriada é a asserção de Nietzsche de que, nos sonhos, "acha-se em ação alguma primitiva relíquia da humanidade que agora já mal podemos alcançar por via direta"; e podemos esperar que a análise dos sonhos nos conduza a um conhecimento da herança arcaica do homem, daquilo que lhe é psiquicamente inato. Os sonhos e as neuroses parecem ter preservado mais antiguidades anímicas do que imaginaríamos possível, de modo que a psicanálise pode reclamar para si um lugar de destaque entre as ciências que se interessam pela reconstrução dos mais antigos e obscuros períodos dos primórdios da raça humana.”


No encalço da ideia de que os monstros são afinal “nossos”, juntamos aqui o ideia de que aquilo que não é percepcionado, e posteriormente introjectado/incorporado, como fonte de prazer/conhecimento (o ‘bom seio’, a ‘mãe suficientemente boa’, os ‘elementos alfa’), encontra como fim a projecção – a parte do próprio Eu percepcionada como estranha, ameaçadora, desorganizadora é projectada no mundo externo que passa a ser povoado pelas más partes do self - os desagradáveis monstros.


Max, o herói desta história infantil, vê a sua solidão, a sua raiva, o sentimento de não lugar, ganharem corpo nos “seus monstros”. Os seus conflitos internos e relacionais são representados como entidades externas que podem ser combatidos e vencidos.

Max é intemporal.

Como o são os seus medos e consequentemente os seus monstros.

Max é uma criação do sec XX, mas encerra em si uma herança intemporal.


Afinal são ‘nossos’ os monstros de todos os tempos.


Imagem: fotografia da autora no Museu do Azulejo – Igreja do convento Madre de Deus, e, ilustração do livro “Onde Vivem os Monstros” de Maurice Sendack


1 - “Onde Vivem os Monstros” de Maurice Sendack. Editor: Kalandraka

2 – “O Sitio das Coisas Selvagens” Título original: Where the Wild Things Are, de Spike Jonze, EUA, 2009, Cores, 101 min.