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Nos 150 anos do aniversário de Ferenczi: uma Psicanálise sensível, à escuta do Outro e de si mesma.


As palavras silenciadas vão gritar no fundo de nós

Christian Bobin


Sándor Ferenczi trouxe ao pensamento psicanalítico importantes contributos que ainda hoje nos surpreendem pela sua acuidade, profundidade e actualidade. Os seus trabalhos e observações clínicas abriram horizontes inexplorados: as relações de objeto primitivas e as suas repercussões no manejo da técnica, o corpo na sua imbricação com a psique, a contratransferência e a regressão, o lugar do jogo na análise de crianças e de adultos, o conceito de empatia - sentir dentro e, muito em particular, os mecanismos de constituição do trauma e os seus efeitos na estruturação do mundo interno: a comoção psíquica, a clivagem, a progressão traumática, os mecanismos de prematuração patológica, a identificação ao agressor ou a saturação psíquica diante do terrorismo do sofrimento. Muitas das suas reflexões e intuições viriam a ser desenvolvidas e expandidas por outros psicanalistas, nomeadamente Donald Winnicott, Michael Balint, Maria Torok.


Sándor Ferenczi foi um dos primeiros psicanalistas a reconhecer a presença da criança no adulto “(…) raspem o adulto e encontrarão a criança”. Os seus trabalhos “A adaptação da família à criança” (1928) “A criança mal acolhida e a pulsão de morte” (1929) “Análise das crianças com os adultos” (1931) e talvez o mais célebre dos seus escritos “Confusão de língua entre os adultos e a criança ”(1933), conferência apresentada ao 12° Congresso Internacional de Psicanálise de Wiesbaden em 1932, testemunham a centralidade da criança no adulto como fio condutor da sua obra. No seu trabalho pioneiro sobre “A criança mal acolhida e a pulsão de morte” Ferenczi lembra que crianças que não foram desejadas e acolhidas sofrem distorções graves no seu psiquismo: “(...) Num quarto onde existe uma única vela, a mão colocada perto da fonte luminosa pode obscurecer a metade do quarto. O mesmo ocorre com a criança se, no começo da sua vida, lhe for infligido um dano, ainda que mínimo: isso pode projectar uma sombra sobre toda a sua vida.” Identifica também, a par das punições passionais, o terrorismo do sofrimento como uma forma de traumatismo que leva a que a criança fique refém, condenada a um amadurecimento precoce, obrigada a cuidar dos adultos, em detrimento dos interesses e necessidades dos cuidados próprios de que necessitaria.


Foi um dos primeiros psicanalistas a deparar-se com pacientes que haviam sofrido acidentes importantes no seu desenvolvimento psíquico em virtude de vivências traumáticas. Numa exemplar e tormentosa investigação, pesquisa incansavelmente as formas de chegar até eles e procura adequações do setting, meios terapêuticos e pontes para um modificável que lhe permita aceder ao que não pôde ser simbolizado. Expande a indicação da psicanálise para além das neuroses, nomeadamente às perturbações narcísicas graves, psicoses ou estados limite, considerando fundamental que o analista se mantenha em sintonia com o estado emocional do seu paciente. O movimento psíquico da regressão na análise é pela primeira vez encarado não como resistência, mas como necessidade de elaboração do trauma, movimento que, quando acolhido, possibilitaria uma maior integração das partes dissociadas do ego e o resgate da confiança perdida. Percebemos como Sándor Ferenczi foi um precursor, nos anos trinta do século passado, dos movimentos da clínica psicanalítica contemporânea.


Mas Ferenczi trouxe à Psicanálise sobretudo uma alma, uma respiração, uma inquietação reflexiva, constantemente debruçada sobre a intersubjetividade, aberta ao acolhimento do estrangeiro e ao desconforto do que é preciso descobrir e (re)inventar em cada encontro e com cada paciente. Trouxe igualmente para a reflexão psicanalítica a importância da escuta da contratransferência, uma atenção ao clima das sessões, aos sentimentos, às sensações, à expressão do corpo, aos gestos, ao olhar, linguagem que pede toda a sensibilidade ao analista. Pensou o processo psicanalítico não apenas como transferência do passado sobre um analista-écran, mas como relação actual, relação terapêutica construída na base da confiança e sinceridade, única forma de não repetir-perpetuar os efeitos do traumatismo original e de permitir movimentos elaborativos e transformadores. Com Ferenczi a hospitalidade adquire cidadania em Psicanálise: “O ambiente precisa de se adaptar àquele que chega, acolhendo-o de maneira ativa”, um acolhimento que possa permitir ao analisando "(...) desfrutar pela primeira vez a irresponsabilidade da infância, o que equivale a introduzir impulsos de vitalidade positivos e razões para continuar a existir“. É o método psicanalítico, e cada psicanalista em particular, que se deve adaptar ao tempo, ao ritmo e à singularidade do sofrimento de cada analisando, e não o inverso. Em "Elasticidade da técnica psicanalítica"(1928) fala-nos também do tacto, essa faculdade de "sentir com" (Einfühlung), fundamento de uma comunicação verdadeira, atitude cuidadosa e cuidadora do analista que sabe esperar o momento adequado para interpretar ou silenciar, de acordo com o ritmo do paciente. Ferenczi compara a sua atitude de terapeuta ao de uma “mãe terna, que não se vai deitar à noite sem antes ter discutido a fundo com o seu filho e resolvido, no sentido de apaziguar, todas as pequenas e grandes preocupações, medos, intenções hostis e problemas de consciência não resolvidos”.


Mas é também a fragilidade e o narcisismo das “convicções” do analista que nega as suas inseguranças e se esconde na hipocrisia de certezas e na frieza e rigidez da técnica, que Ferenczi interroga e questiona: “Nada de mais nocivo em análise do que uma atitude de professor ou mesmo de médico autoritário. Todas as nossas interpretações devem ter mais o caráter de uma proposição do que de uma asserção indiscutível, e isso não só para não irritar o paciente, mas também porque podemos efetivamente estar enganados. [...] Do mesmo modo, a confiança nas nossas teorias deve ser apenas uma confiança condicional, pois num dado caso talvez se trate da famosa excepção à regra, ou mesmo da necessidade de modificar alguma coisa na teoria até então em vigor (1928). A recusa dos afetos próprios por parte do analista era igualmente considerada por Ferenczi como uma das principais causas de resistência dos pacientes ao trabalho elaborativo :“É verdadeiramente impossível [ao analisando] levar a sério os seus movimentos internos, quando me sabe tranquilamente sentado atrás dele, fumando o meu cigarro e reagindo, indiferente e frio, com a pergunta estereotipada: o que lhe ocorre a esse respeito? (1932).


Sándor Ferenczi escreveria em 1908 o primeiro texto explicitamente consagrado aos laços entre Psicanálise e Educação - Psicanálise e Pedagogia - Conferência apresentada ao Encontro de Psicanalistas em Salzburgo. Questionando que ensinamentos práticos a pedagogia pode extrair das observações feitas pela investigação psicanalítica, dá voz à necessidade de uma pedagogia que se se enriqueça com o olhar psicanalítico. Refletindo sobre o sofrimento psíquico infantil e os princípios pedagógicos, propõe uma transformação das práticas educativas para que se escutem as necessidades de desenvolvimento das crianças, prevenindo futuros impasses no seu desenvolvimento psíquico. Estamos diante de uma deslocação decisiva do olhar: da pesquisa do “problema da criança” para a pesquisa dos elementos que, por via da relação entre o(s) adulto(s) e a criança, podem dificultar ou abrir vias para o seu desenvolvimento.


O crescente interesse pela obra de Sándor Ferenczi, rompendo décadas de muros e pactos de silêncio, é talvez o “soltar as línguas” de uma Psicanálise hoje felizmente mais capaz de se pensar a si mesma.


Imagem: Foto clássica de Ferenczi jovem (Imagem da Net, editada)

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