Humor – o triunfo de Eros



8 de Setembro de 2022 foi o dia da morte da rainha Isabel II de Inglaterra.

Minutos depois do comunicado oficial da sua morte começaram a surgir por todo o lado “reações”. Houve-as de todas as formas e feitios. Em todas as redes sociais, multiplicaram-se e foram partilhados infinitas vezes, memes (meme in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa = imagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem.) dos mais ternurentos aos hilariantes passando pelos formais e por aqueles mais negros e sádicos. Hoje, passado sensivelmente um mês, desapareceram, podemos dizer que perderam o seu propósito.

Foram uma falta de respeito?

Acho que não!


Embora tenhamos o riso como um fenómeno universal, o mesmo não podemos dizer do humor. O humor carece de contexto, quer sociocultural, quer temporal, não são raras as vezes em que uma piada se perde quando traduzida para outra língua, ou se for resgatada num período ou cultura diferente. Obedece a códigos e requer cumplicidades. Nas últimas décadas, com o arrefecimento da censura, o humor liberalizou-se e deixou de estar sob o controlo da lei vigente. Hoje a critica política está emparelhada com o humor e é uma linguagem não só comum, mas desejada, no espaço público e democrático.

Com os memes todos nos tornámos produtores de humor, um humor veloz, acessível, mas rapidamente perecível. Os memes integraram a cultura popular trazendo consigo a ilusão (ou não) de algum poder interventivo, como se de uma arma social se tratasse, face a situações em relação às quais, não fosse o humor, seriamos impotentes.

Mas sabemos empiricamente que o saber rir sobre nós próprios não é para todos e temo-lo a maioria das vezes como um sinal de saúde mental.


O que sabemos então sobre esta possibilidade/capacidade de rir?

O humor consiste numa forma inteligente de lidar com a dor e o sofrimento e ainda tirar prazer disso. A teoria psicanalítica explica-nos que “a piada” (como o non-sense, o paradoxo, o absurdo) e o seu efeito humorístico usa os mesmos mecanismos da condensação e deslocamento, pelos quais o inconsciente se manifesta nos sonhos, actos falhados e sintomas. Ou seja, a piada é uma possibilidade de exteriorização de conteúdo recalcado que encontra um caminho para a sua expressão sem pagar o preço de outras formas de manifestação como a angústia ou o sintoma.

O humor é um perfeito álibi para algumas verdades que não poderiam ser ditas sem provocar sofrimento ao próprio ou ao outro. “Numa brincadeira pode-se dizer tudo, até a verdade” enuncia Freud no seu livro de 1905 “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (na tradução brasileira).

No humor, especialmente no mais sádico/negro, encontramos a tentativa de equilíbrio entre Eros e Thanatos. Temos o reconhecimento da dor (da angústia de morte) e ao mesmo tempo a procura de Eros / da vida / da alegria. Face à angústia de castração, do desamparo e da solidão dos quais não nos conseguimos alhear, o humor surge como uma saída corajosa e digna, rindo vencemos, ainda que transitoriamente, a fragilidade humana, a precariedade da existência e a inevitabilidade da morte.

Fazer humor é, portanto, uma forma de não adoecermos, de não ficarmos esmagados pelas inquietações que emergem das profundezas do nosso ser e nos colocam em contacto com a nossa fragilidade e mortalidade.


Rir.

Rir é a esmagadora maioria das vezes uma das coisas mais saudáveis que podemos fazer.



Referência bibliográfica: FREUD, S. Os chistes e sua relação com o inconsciente [1905]. In:___.Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. VIII.


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