Eros e Thanatos


Algures no tempo, em finais de um dos confinamentos pandémicos, quando os eventos culturais começavam timidamente a abrir, fui ver um espetáculo de dança contemporânea (“A Sagração da Primavera”, pelo Quorum Ballet) que muito me marcou. Nunca vira o corpo a falar com tanta exuberância, nunca escutara a linguagem das emoções tão bem falada em corpolês: a dôr, o deslumbramento, a dúvida, o desamparo, a raiva, o medo, a paixão… Os corpos dos dançarinos falaram e cantaram e o meu corpo (sequioso de vida social, de abraços, de corpos) – possivelmente por via dos “neurónios espelho” – também dançou com eles no palco.

Senti o corpo (cansado de distância física e enfartado de tecnologia e realidades virtuais) restituído e como remédio para o “cansaço pandémico num mundo confinado e descorporalizado” (“Pandemia e Saúde Mental”, Janeiro 2021) sugeri “imersão ocasional na vida cultural – dança, teatro, música – capaz de nos trazer de volta o corpo e o encantamento do humano”.


Agora, já refeita dos efeitos anti-sociais e descorporificados da pandemia, deparei-me com um outro espetáculo de dança, que coloca questões sobre o futuro de uma humanidade cada vez mais dependente da tecnologia – Passionaria” (Companhia “La Veronal”) – e que novamente me marcou, mas pelo seu efeito paradoxal, como descreve o coreógrafo Marcos Morau: “Da mesma forma que uma pintura sombria de Rembrandt ou Caravaggio nos fala sobre a luz, em Passionaria tudo o que não está lá, tudo o que está em falta é o que queremos valorizar. Utilizamos os corpos dos bailarinos como espaço para esculpir em negativo, para mostrar o eco, o vazio, a absoluta falta de paixão.”

Se paixão se define pelo que de mais intenso existe como emoção humana, de vida, de amor e morte, de felicidade e sofrimento, os corpos dos bailarinos em “Passionaria” mostram justamente o contrário – o vazio, a dimensão não humana. O movimento aqui não exprime uma emoção, mas a ausência dela. O corpo não se move como um todo, mas em pedaços desarticulados, bizarros, deixando-nos em contacto com “o estranho”. Um corpo que se parte, que se fragmenta, partes desligadas como num robot, mente desligada como na loucura ou no vazio psicótico…


O pano abre ao som de “A Paixão Segundo São Mateus” (Bach, 1727) e enquanto ouvimos o grito “apaixonado” das vozes do coro, surge à nossa frente um cenário estranho, estático, difuso. Um fio de luz contorna o palco emoldurando a cena, que se passa por detrás de uma tela (screen) translúcida e escurecida, situando a “acção” por detrás de um ecrã (screen) digital.

Um primeiro bailarino, agarrado áquilo que parece ser uma trotinete elétrica e que depois afinal é um aspirador, move-se em pedaços desarticulados. Surge uma bailarina-boneca-espantalho como uma marionete de fios invisíveis que sobe e desce escadas numa acção repetitiva e inquieta. Aos poucos outros personagens vão surgindo, cada qual absorto no seu mundo/suas tarefas, cruzando-se sem comunicarem, através de sons estridentes e sem nunca se tocarem. Atrás, uma janela de cortinas fechadas, que os bailarinos ora abrem ora fecham, deixa ver uma paisagem que se move como se da terra a girar se tratasse, oscilando dia / noite, sol / lua, estrelas, nave espacial, mas sempre igual, novamente como um ecrã desenhado num rolo de papel que vai rodando e voltando ao mesmo lugar, evidenciando a sua qualidade artificial.


Um espetáculo impressionante e impressionista justamente pela impressão mental de estranheza que provoca, onde a ausência existe pelo excesso de uma presença desarmónica, onde a música melódica (ópera, valsa ou uma sonata de piano) aleatoriamente oscila com música metalizada, colocando em contraste o cheio / vazio, o humano / desumano; harmonia / caos, Eros / Thanatos… Sempre em tons neutros…

Na minha cabeça desenrolaram-se memórias de filmes como “Blade Runner” (de Ridley Scott, 1982), com os seus “replicantes” não humanos), “1984” (de Michael Radford, 1984) e as suas personagens prisioneiras de um poder controlador e violento, “Gravity” (de Alfonso Cuorón, 2013) e a ausência de gravidade e de vínculo emocional…


Inês Gomes, a propósito do Amor, citou Eugénio de Andrade: “É urgente o amor. É urgente um barco no mar”. (…). Agora oiço: “É urgente salvarmo-nos da realidade virtual. É urgente voltarmos a tocar uns nos outros, é urgente pensar e sentir para lá do nosso umbigo e olhar o outro, é urgente largar o corpo-imagem e voltarmos ao corpo-sentir- pensar… É urgente a paixão…”


Penso no conceito de negativo em Psicanálise (André Green), onde a ausência de objetos internos se pode tornar numa presença ruidosa, caótica e violenta e, por outro lado, é necessária alguma ausência, ou falta, para que a representação possa surgir.

Num mundo de gratificação imediata não há espaço para esse negativo estruturante. Num mundo afogado em medicamentos para a dor mental não há espaço para a transformação e crescimento psíquico. Num mundo de ecrãs e comunicação pela imagem não há corpos, nem símbolos , nem laços que sobrevivam, torna-se um universo sem “gravity”.

Um universo vazio, de onde irrompe a súbita, brutal e estranha violência de um jovem aparentemente tranquilo e bem-comportado, que planeia fazer explodir uma bomba numa Universidade.


Ou a violenta passividade de alunos numa escola que desligada e des-empáticamente assistem a uma cena de bullying e que, no lugar de interferirem, impedindo que uma jovem seja violentamente agredida, observam através de uma câmara. Onde está a “paixão”, a revolta, a dor e o sofrimento das pessoas à volta? Tão violento como observar a jovem a gritar de dor e impotência, foi assistir à violência do negativo, do des-afeto dos que lá estavam.


Falando agora “psicanalês”, não será esta violência da destruição indiferente e do desligamento afetivo a voz de Thanatos (“Pulsão de Morte” de Freud)?

Bem diferente parece ser a violência a que agora assistimos com o irromper da Guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Uma destruição brutal e humana que, pelo seu efeito paradoxal, desencadeia ligação (Eros): que promove indignação e revolta no mundo inteiro, que parece reunificar uma Europa dividida, que leva a que os ucranianos (alguns vindos de vários cantos do mundo) ponham a salvo mulheres e crianças e corajosamente se entreguem para lutar na defesa de uma causa – a pátria, mas também outros valores universais como a liberdade, a democracia, os direitos humanos… Uma violência que cria cordões humanos, manifestações, e movimentos de ajuda humanitária pelo globo inteiro. Que leva a que as crianças aprendam o azul e o amarelo da bandeira ucraniana.

Aqui nada é estranho. A pulsão de sobrevivência, de solidariedade, de empatia, de ligação está presente – Eros ou Pulsão de Vida, a propósito da qual Freud escreveu há quase 100 anos: “Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra.”


Imagem: Fotografia de “La Passionaria”


Referências Garcia, C; Penna, C (2010). “O Trabalho do Negativo e a Transmissão Psíquica”. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 62 (3). Green A. (1993). Le travail du negative. Paris: Minuit. Freud (1932): Por que a Guerra?. Carta de Freud a Einstein. In “Obras Completas de Freud”. Vol. XXII

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