Do Amor


Sentada frente ao computador aguardo, com uma sensação de bloqueio, que algo dentro de mim aconteça para encontrar a forma de começar a escrever. É que vos quero falar de Amor, e as palavras da psicanálise parecem-me desadequadas para o fazer. Uma ideia algo dissociada que me faz crer que sabendo elaborar o conceito, tendo acesso às formulações e teorias, não conseguirei através delas chegar ao “Amor”. Não em poucas palavras, não da forma como gostaria de o fazer.

Mais fácil seria pedir palavras emprestadas a um poeta, ocultar-me da literatura, dizer-me com a letra de uma canção.

Mas o Amor não é objecto apenas das artes, também nós, os que não temos essa outra linguagem para nos expressarmos, podemos ousar falar de Amor.

“Amor” não é um conceito psicanalítico, mas tanto na clínica, como na formulação teórica, não fazemos outra coisa senão falar de amor. É por conta do amor que adoecemos, é pelo amor que nos curamos.

Socorro-me de Freud “É preciso amar para não adoecer (…)”1, e logo em seguida me surge Eugénio de Andrade “É urgente o amor. É urgente um barco no mar. (…)”.

O pensar e o sentir. Encontros de linguagens que se vão urdindo dentro de mim.

É que não sei falar de amor, sem ser “de dentro”.

Será aí que reside o amor?

Dentro?

O amor existe a partir do sujeito desejante, no reconhecimento de um outro, separado de mim a quem dirijo o meu afecto.

Será aí que reside o Amor?

Fora?

O bebé aprende a amar a sua mãe apenas quando a concebe como separada dele, é ao lidar com a frustração, com a ausência do objecto ideal até então omnipresente, que se torna sujeito desejante. O sujeito desejante demanda ao outro aquilo que lhe falta, e nessa procura posiciona-se justamente onde há reciprocidade – faz-se “amante” para ser “amado”. Nesta primeira relação como em todas as suas relações futuras.

Mas porque parece que o amor a uns cura e a outros adoece?

O eterno desencontro amoroso de que é feita a trama das relações humanas, nasce da ilusão da completude. Parafraseando Costa e Leite (2019)2, um desenha-se conforme o esboço do desejo do outro, tenta inscrever-se no lugar do objecto de amor ideal, amando torna-se passível de ser amado, numa gratificação narcísica mútua mas… insustentável. A possibilidade de ocupar esse lugar ideal não passa de uma ilusão o que leva Lacan a definir o que é amar como “… dar o que não se tem”3

Mas amor é também suportar o princípio da realidade e prescindir da satisfação plena do princípio do prazer. Ir ao encontro do outro na procura da verdade individual. Ser “Eu”, aceitar-te a “Ti”.

Neste sentido uma análise é ela própria uma história de amor, como nos dizem Costa e Leite2. Uma relação sustentada na transferência, mas uma história nova, onde se pode recordar, repetir e elaborar os vários capítulos desse romance inacabado que é a vida de cada um. O sujeito, com o analista, pode rever e reviver cada experiência amorosa, resignificando-a, reconhecendo a diferença entre amor ideal e amor possível, até começar a escrever novos capítulos que irão para além do analista e da análise.

Será aí que reside o amor?

No reencontro?

Dizer o Amor não é tarefa fácil. Procuramos o outro, ou procuramo-nos no outro? Porque nos transformamos então para corresponder ao desejo do outro? “Metades de laranja” em busca permanente de completude, somos sujeitos desejantes na demanda do que nos falha.

Qualquer busca é por isso uma busca de amor. Seja ela de conhecimento, de aventura, de “um outro”. E a satisfação reside na (ainda que ilusória ou descontinua) plenitude do encontro.

Será aí talvez que resida o Amor. Nos laços tecidos com os outros. E na possibilidade de sermos amados para que possamos vir a amar.

Os poetas revisitam-me. Pela capacidade que têm de dizer o amor. Deixo-vos Sebastião da Gama sobre o amor primeiro.

Quando eu nasci, ficou tudo como estava, Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais… Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu. Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu. As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém… P’ra que o dia fosse enorme, bastava toda a ternura que olhava nos olhos de minha Mãe…

Imagem: Yuval Robichek

1 – FREUD, S. (1914) Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos.

2 – COSTA J.S.; LEITE M.C. (2019) Do nó ao laço: um estudo sobre o amor na psicanálise. Revista Terra & Cultura: Cadernos de Ensino e Pesquisa. V. 34

3 – LACAN, J. O Seminário, livro 8: a transferência – 1960-1961.

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