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Dançar Primeiro, Pensar Depois






Na semana em que estreia, entre nós, Dance First, filme de James Marsh, e depois da edição da monumental biografia Falhar Melhor, de James Knowlson (1), talvez seja oportuno ler outra vez Samuel Beckett.


Refira-se, porém, que esta fortuna beckettiana contrasta, em flagrante delito, com a ausência dos seus romances e poemas nas nossas livrarias. Dar a ver para ocultar, instagramar para a invisualidade. Empalidecer.


Beckett é o Shakespeare da nossa época e da nossa época anterior. E, para nós, Shakespeare é o grande inventor de Freud.


O sempre crescente espírito interior, incluindo a sua capacidade de se ouvir a si mesmo, é a invenção do humano. Shakespeare mudou a nossa forma de apresentar a natureza humana — se é que, interroga-se Bloom, não mudou a própria natureza humana.


O teatro de Shakespeare é o teatro da fala. E o essencial no teatro de Beckett é a fala dramática. É preciso falar, é preciso dizer, falar é preciso. E Beckett permanece fiel ao despojamento do teatro shakespereano.


Hamlet e À Espera de Godot são obras clássicas. Isto é: são livros que nunca acabam de dizer o que têm para dizer.


O título do filme sai de um diálogo no I acto de À Espera de Godot em que as quatro personagens se encontram (2):


«POZZO: Quem! Vocês sabem pensar?!


VLADIMIR: Ele pensa?


POZZO: Claro que sim. Em voz alta. Ele até costumava pensar muito bem, eu era capaz de passar horas a ouvi-lo. Agora... [Treme.] Pior para mim. Então, gostavam que ele pensasse um bocado para nós?


ESTRAGON: Eu cá preferia que ele dançasse, era mais divertido.


POZZO: Não necessariamente.


ESTRAGON: Não era, Didi, não era mais divertido?


VLADIMIR: Eu gostava muito de o ouvir pensar.


ESTRAGON: Talvez ele possa dançar primeiro e pensar depois, se não for pedir- lhe muito.


VLADIMIR: [Para POZZO.] Acha que é possível?


POZZO: Mas com certeza, nada mais fácil. É a ordem natural. [Ri um pouco.]


VLADIMIR: Então ele que dance.


[Silêncio.]» .................................................................................................................................

O encenador Gregory Mosher resume assim esta tragicomédia: «À Espera de Godot é uma história sobre dois gajos que estão à espera de outro que nunca mais chega. O que faz de Beckett tão poderoso é exactamente a sua habilidade para condensar a experiência de um século apocalítico dentro de uma história simples. Ele comprime o universo num átomo que depois explode na nossa imaginação.»


Esta peça, publicada em 1952, inicia um conjunto de grandes ontoteologias teatrais a que se seguem Fim de Partida [1957], A Última Recordação de Krap [1959], Os Dias Felizes [1961]. Em todas elas, a fala imperdível: a fala inefável.


Ushio Amagatsu explica que «dança, danse, dance, danson: em português, em francês, em inglês ou em alto-alemão, a palavra, dizem-nos os dicionários, significa, na sua origem: “alongar”, “estender”, “esticar”». (3)


E é precisamente isso o que a obra de Beckett faz: esticar, alongar a linguagem até aos seus limites. Um passo adiante e a criação literária cala-se para sempre.


E é precisamente isso que este filme não faz, pois é o pensamento, e não o olho, que distingue permanência e movimento, essência e aparência.


Por fim, de soslaio, podemos chamar Beckett à nossa praça e estabelecer relações entre a sua obra e a de W. Bion [com quem fez 2 anos de análise, nos anos trinta, na Clínica Tavistok].


A este propósito, leiam-se as produtivas especulações de D. Anzieu, Ian Miller, Kay Souter, entre outros.


Certo é que ambos os autores tiveram como projecto existencial pensar o impensável, nomear o inominável, conhecer o incognoscível.


Isto já nos é suficiente, temos de continuar, não podemos continuar, vamos continuar.


Referências:

1. Knowlson, James, Falhar Melhor, A vida de Samuel Beckett, Empilhadora, Porto, 2023


2. Beckett, Samuel, Teatro Completo, Edições 70, Lisboa, 2021


3. Amagatsu, Ushio, Diálogo com a Gravidade, VS., Lisboa, 2022


Imagem: foto de Samuel Beckett (Printerest)

 

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