[d’] A [s] Guerra[s], essa Invenção dos homens & [d’] A Paz


A guerra que suscitou esta reflexão é - evidentemente - a que tem agora lugar na Ucrânia e que corresponde a uma invasão militar, onde uma força beligerante russa, à margem do direito internacional, procura dominar um estado soberano, a Ucrânia; trata-se de uma ocupação absolutamente ilegítima e condenável ao mais alto nível, existindo, objectivamente, um agressor - a Rússia - e um agredido - a Ucrânia.

Por razões óbvias, este meu exercício reflexivo abster-se-á de fazer considerações de natureza histórica, económica ou geo-política.


A guerra - agora entendida em abstracto - corresponde a uma solução radical, implicando o recurso à luta / força das armas, com o propósito de uma entidade derrubar uma outra entidade.

Depreende-se que, com frequência, as partes que se digladiam numa guerra, antes do conflito armado, procuraram entender-se, negociar, sendo que o compromisso não foi atingido.

Contudo, guerras há que se instalam na sequência de uma pulsão hegemónica, configurando uma invasão de um território livre. Nestes casos, a guerra reflecte uma luta armada entre uma força invasora e uma entidade agredida, que se defende, recorrendo também a armas.


Em termos puramente metapsicológicos, a guerra pode ser compreendida como um triunfo do ID (sede dos impulsos e desejos), que esmaga o Eu, cujas capacidades de mediação, secundarização e elaboração soçobram. Dito de outro modo, a guerra equivale a um movimento regrediente, onde o processo primário retoma a primazia - o que implica, logicamente, uma perda de dominância do processo secundário.

Assim, presume-se que a guerra traduza um triunfo do agir sobre a palavra: na falha do entendimento racional, o comportamento hostil impõe-se.


Queiramos ou não, a guerra comporta sangue, morte, destruição, aniquilamento e toda a sorte de sofrimento concebível. Na guerra mata-se, exercita-se o ódio, agido selvaticamente.

Haverá guerra sem excessos, sem humilhações, sem crimes, sem violação, sem barbaridade, sem estropiados, sem órfãos, sem perdas tremendas, sem um cenário de devastação?


A guerra que causa repulsa a uns é a mesma que excita outros, que não resistem a segui-la a toda a hora e instante, servida ao vivo na TV ou requentada, em diferido, mas em modo condensado (tipo ‘best of’), ou ainda em cama de comentários especializados & flor de sal.


A guerra que aterroriza é a mesma que gera uma indústria poderosíssima, que faz circular milhões, que capta uma parte das mentes brilhantes e prodigiosas, que com afinco desenvolvem material sofisticado, cujo propósito é matar mais, sujando menos.

Haverá guerras sem sangue, dizem… sem destroços, também… mas sempre sem vidas. Lá chegaremos, em breve.


A guerra é, portanto, cousa dos homens. A natureza humana agraciada com Eros é a mesma que alberga Thanatos.


Os conflitos bélicos, para lá das nefastas consequências descritas (afins com o sangue e a perda), cursam ainda com outro tipo de fenómenos, próximas do desvio e da insanidade. Para haver guerra, é necessária manipulação (das massas, da informação, que molda a verdade com eufemismos, mentiras e outros recursos expressivos) e uma clivagem inclemente.


Na sequência da invasão da Ucrânia, vimos assistindo ao crescimento de um perigoso fenómeno, cuja raiz é, justamente, a clivagem, essa operação defensiva tão primitiva. Refiro-me ao ‘Cancelamento’, tão em voga nos tempos em que vivemos…


Este lamentável fenómeno traduz-se na diabolização e subsequente escotomização de indivíduos equacionados com uma determinada entidade autónoma deles - por exemplo, tomam-se os russos por Putin: como se odeia Putin, odiar-se-ão os russos, enquanto povo. Daí em diante, semeado o ódio, que rapidamente se dissemina graças à irracionalidade, basta recolher os corpos!


Desde que este conflito armado teve início, o fenómeno do ‘cancelamento’ vem somando vítimas, a um ritmo avassalador. Artistas, intelectuais, cidadãos russos, em número crescente, foram dispensados, afastados e perseguidos. A insanidade atingiu limites paroxísticos, chegando a propor-se, em círculos universitários, a retirada, dos curricula, de obras literárias de autores como Dostóievski, Tolstoi, Gorky… Salas de espectáculos despediram artistas, por serem russos, ou suprimiram dos seus programas compositores com Tchaikovsky, Glinka e outros!


A(s) guerra(s), essa(s) cousa(s) dos homens… sim…


Há escassos dias, a jubilação de uma amiga privou-me de assistir a um (vamos assim chamar-lhe) ‘encontro regular’, que venho frequentando de forma assídua e empenhada. Mal me dei conta da minha impossibilidade de estar presente, prontamente, escrevi a quem dirige o dito encontro. A pessoa em causa compreendeu as minhas razões.

Retomei os encontros dias depois, com a noção clara de ter perdido os conteúdos que aí haviam sido expostos e debatidos no dia da minha falta… Pois não é que a Pessoa que os dirige iniciou a sua exposição com uma síntese tão detalhada, mas tão detalhada da anterior reunião que colmatou as minhas falhas?! Dir-se-ia que o fez com o propósito de me inteirar de tudo!


Esta derradeira história pode bem ser uma interpretação abusiva da minha parte. Afinal de contas, quem me garante que o coordenador não agiria de igual modo se eu não tivesse estado ausente da anterior reunião? O meu narcisismo assim não quis, preferindo eu considerar que aquele gesto foi uma acto de amor pelo conhecimento ;))


O(s) amor(es), essa(s) cousa(s) dos homens… sim!"



Imagem: retirada de https://www.dailysabah.com/world/europe/drone-video-shows-extent-of-damage-in-ukraines-borodyanka: vista aérea de um edifício residencial destruído na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia, na região de Kiev. Imagem captada a 3 de Março de 2022.