CONTIGO, NOS BARULHOS DO MUNDO


L'avenir, tu n'as pas à le prévoir, mais à le permettre

Antoine de Saint-Exupéry


Naquela noite, quando a tempestade chega, quando a chuva cai desenfreada e o vento sopra muito, muito forte, arranca árvores e entra no seu quarto, a pequena Clarisse não tem medo. Não se sabe exatamente o que acontecerá, mas ela faz algumas perguntas e está calma. O pai e a mãe estão lá. A pequena família, abrigada num tempo-tenda onde se vão reunindo provisões que garantem conforto e segurança, banha-nos num ambiente de tranquilidade e numa luz cálida e serena. A cama de Clarisse transforma-se numa jangada que enfrentará a fúria dos elementos.


La Tempête é um maravilhoso conto infantil de Florence Seyvos. Penso que grande parte dos contos para a infância são histórias para todas as idades, repletos de aprendizagens para a vida, uma espécie de currículo em espiral, de que já falava Jerome Bruner, quando dizia que qualquer conteúdo poderia ser ensinado e tornado útil em qualquer estádio do desenvolvimento.


Para além das angústias internas próprias ao crescimento, o mundo externo traz inúmeras tempestades ao psiquismo infantil - guerra, violência, doenças, morte, perdas, sofrimentos e inquietações várias - com que a criança se depara e para as quais não tem ainda suficientes recursos internos que lhe permitam compreendê-las e integrá-las, sem que seja assaltada por nuvens pesadas, sem que veja comprometidos o seu bem-estar e a sua energia de vida, a estruturação do seu mundo interno, a relação de confiança em si mesma e nos que a rodeiam.


Proteger a criança das tempestades e dos barulhos do mundo não equivale a encerrá-la numa redoma, tanto mais que a criança sabe e sente, sobretudo os segredos que lhe são escondidos, pois vive no mundo, dele faz parte e dele recebe informação sem filtro, em todos os lugares de vida, na escola, na família, da televisão, das redes sociais, ecoando o que a rodeia. A questão é que muitas vezes se identifica a estes barulhos e a esta angústia, que interioriza e torna seus, sendo invadida por eles, atribuindo-se responsabilidades, confusamente, no seu imaginário, restando-lhe como parco recurso desembaraçar-se desses sentimentos através de projecções maciças no exterior ou refugiando-se em criptas de solidão e incomunicabilidade.


O adulto é aquele que lhe pode trazer, através da palavra, de uma relação de proximidade, de confiança, de amor e de afecto, o entendimento para os barulhos do mundo, a alfabetização e o apaziguamento necessários, permitindo que nunca se sinta só, protegendo-a do excesso de acontecimentos e imagens que a sua mente não está capaz de suportar e de entender, oferecendo-se como recurso-suporte para que possa perceber o mundo nas suas diferentes facetas, sobretudo as mais difíceis e cruéis, apresentando-lhe o que poderemos fazer para as ir alterando e transformando. Mostrando-lhe, igualmente, como as realizações humanas, através da cultura, da criatividade, dos laços de humanidade, da educação, da arte, da ligação à natureza, melhoraram o mundo e ainda o poderão melhorar, trazendo-lhe o universo do lúdico e da leitura, caminhos que abrem novos sentidos e possibilidades, redes de palavras, de conhecimentos, de imagens, de fantasia, que enriquecem o sonho e a vida.


Em momentos em que na família uma perda importante ou inquietações maiores tomam conta do psiquismo dos adultos, a criança sossegará se a palavra com afecto tomar o lugar do não-dito e do agido, que tantas vezes a tornam numa dolorosa caixa de ressonância silenciosa de pesados segredos e tormentas. E uma desejável maturidade adulta pedirá também que a poupemos a inversões de lugares e a confidências de missões impossíveis. Onde há ruptura há que procurar continuidades, onde há silêncio, comunicação.


Não é possível proteger a criança de todo o sofrimento ou inquietação, de todo o barulho do mundo, mas é possível evitar sobrecarregá-la com os barulhos que o adulto pode e deve procurar conter, por forma a trazer-lhe serenidade e entendimento, para que não se sinta só, para que possa ir construindo bons acompanhantes internos e um sentimento de confiança que a ajude a encontrar criativamente formas de superar os momentos mais difíceis.

Se a tempestade chegar, não se sabe exatamente o que acontecerá, mas haverá uma jangada onde poderá enfrentar a tormenta e a fúria dos elementos, acompanhada.

Na última página de La Tempête, num mar já calmo, onde ainda não se avista nem terra, nem outros barcos, na jangada onde navegam, Clarisse pergunta à mãe:

- E agora? o que fazemos agora?

- Viajamos

Imagem: Cy Twombly, sem título. Acrílico e lápis sobre papel, 1992