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Close


”Close” (Lucas Dhont, 2022) narra a história de uma intensa relação entre dois jovens adolescentes de 13 anos: Léo e Rémi.


Após umas férias de Verão marcadas por grande intimidade entre ambos, os jovens retomam a escola, conseguindo manter a mesma proximidade de outrora. Colocados na mesma turma, rapidamente são alvo de interrogações e provocações por parte dos demais colegas, que aludem a uma hipotética relação homossexual entre ambos. Francamente incomodado com esta visão da turma sobre a sua proximidade de Rémi, Léo decide, então, introduzir uma distância crescente em relação ao amigo, aproximando-se progressivamente de colegas mais viris. O afastamento de Léo terá consequências tremendas...


A relação que une estes rapazes, assente numa proximidade assinalável e muito cúmplice, tanto no plano físico, como no plano psicológico, reveste-se de significados e importâncias distintas para os envolvidos.


Como sabemos, não são são raras as relações entre jovens adolescentes em que a componente homossexual (agida ou não) se encontra presente, ora mais explicita, ora mais implícita, ora mais, ora menos consciente. De resto, muitos são os adolescente que, após relacionamentos íntimos desta natureza, claramente atravessados pelo homo erotismo, seguem um percurso heterossexual, que vem a firmar-se na idade adulta.


Aqueles dois jovens imberbes experimentam um contacto estreito entre si, sem que a presença dos adultos interferisse nas trocas que foram mantendo. Terá sido, porventura, uma relação que inaugurou o fim da tutela adulta, para os envolvidos.


Além da componente anaclítica, a proximidade dos dois protagonistas constituiu um esboço de construção de uma identidade masculina.


Léo, consciencializa a dimensão homo da relação mantida com Rémi através dos comentários de que vai sendo alvo, assim que as aulas têm início. A estranheza com que os demais colegas encaram a intimidade dos dois rapazes parece constituir um sinal de alerta para Léo, que rapidamente abraça a necessidade de pôr termo a uma relação algo ambígua, marcada pela indefinição, onde nem sequer a escolha de objecto parece estar encerrada…Rémi, mais frágil e carente, anaclítico (eventualmente mais instalado numa orientação homossexual) não resiste ao afastamento do amigo, vindo a suicidar-se.


Léo procurará, com a distância introduzida relativamente ao companheiro, estruturar uma identidade masculina mais clássica, onde a componente viril constitua a trave-mestra. É neste sentido que inicia um desporto tradicionalmente reservado a homens robustos e ‘muito másculos’: o hóquei no gelo.


Em Léo, parece haver uma renúncia da relação pretérita com Rémi, ditada por uma orientação heterossexual dominante. Para este rapaz, apesar da conflitualidade interna viva, perfila-se um destino eminentemente hetero. Já no caso de Rémi, cujo fragilidade anaclítica se confundira com uma aparente orientação de tipo homo, dada a morte precoce, o destino (escolha de objecto, orientação sexual) permanece uma incógnita - uma incógnita relativa, arrisco eu.


Diria que, mais prosaicamente, o que para um (Léo) parece ter sido uma passagem marcante e de relevo, para outro teria constituído um destino.


(texto extraído de uma comunicação apresentada no III Colóquio IA - Identidades e Afectos "O SEXO E O SEXUAL", a 27 de Maio de 2023, no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, comunicação apresentada por João Galamba de Almeida, com o título "(In)Definições: interrogações, dúvidas & incertezas")



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