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Animal. [ ıı ]


Fotografia: Jorge Rolão Aguiar


Animal: Urso


Quando a antropóloga francesa Nastassja Martin viajou para a Rússia pós-soviética para estudar as famílias do povo even no coração das florestas siberianas, não imaginava certamente o encontro físico que aconteceria entre ela própria e um urso. Dois mundos encontraram-se, enfrentaram-se, colidiram em sangue, osso, pele e pêlos, e passaram a habitar os sonhos um do outro: os sonhos de Nastassja e, quiçá, os sonhos do urso. Esse encontro é objeto do livro Croire aux fauves, traduzido para português como Escutar as feras. Da sua leitura, fica uma impressão dupla: a violência do encontro e o desejo do encontro. Entrevemos como cada um deles, a mulher e o urso, guardou fisicamente algo do outro: uma porção de alteridade, mas ao mesmo tempo a certeza de que o abismo que os separava tinha sido transposto. Não havia ódio, apenas sobrevivência e existência. Claro que a voz que o leitor segue é a voz humana; mas essa voz está finalmente e de certo modo contaminada pelo rugido da besta, pela violência da mordida da fera. Pelo trauma e pelas cirurgias.

Estou deitada sobre a barriga de um urso que me envolve com uma pata protectora. É um urso grande, cinzento. Falamos disto e daquilo, falamos a mesma língua. O corpo do urso e o meu estão entrelaçados indistintamente, a minha pele funde-se na sua pelagem espessa. Conversamos com toda a tranquilidade, mas, de súbito, sinto uma angústia surda quando um segundo urso, e, depois, um terceiro, nos entram pelo quarto (estamos estendidos numa cama num quarto que não reconheço). Um deles é preto, o outro, pardo. São mais novos, e também mais pequenos, roçam em mim e, de repente, sinto-me ameaçada, reparo nas suas garras, nos seus dentes e na sua ambivalência que, de súbito, começa a ressoar com a minha, já não sei como este encontro vais acabar, estou apavorada. (pp. 100–101)

Aprendi algures, talvez numa história popular, que o único modo que tens de sobreviver ao abraço de um urso é encostares-te a uma árvore de tronco largo segurando com ambas as mãos uma lâmina à altura do teu osso esterno. O urso corre para ti, põe-se de pé como um homem gigante, abre as patas anteriores e abraça-te. Com sorte, se os seus dentes não apanharem o teu pescoço, ele abraça o tronco da árvore e (com sorte, repito), se não te esmagar imediatamente, talvez a tua faca alcance uma artéria vital do animal. Com sorte, talvez sobrevivas como acontece no filme The Revenant, dirigido por Alejandro Gonzalez Iñárritu, com Leonardo di Caprio interpretando o homem que enfrenta a fera. Essa luta de morte marca uma viragem na narrativa, uma passagem para um outro plano, onde a neve, as árvores, o rio, o vento, etc., se tornam atores hiper-presentes na atmosfera cinematográfica. Um plano contínuo de estado selvagem.

Em qualquer caso, nós, pessoas ocidentais, estamos sempre ou no conforto do nosso sofá lendo a narrativa de Nastassja Martin, ou aquecendo-nos junto de uma fogueira escutando histórias antigas, ou numa sala de cinema. Ou, ainda, numa sala de espectáculos, olhando atores e bailarinos que nos transportam para um certo plano da realidade, onde as mutações tangenciam uma memória tão antiga que pode invadir os nossos sentidos antes daquilo que se convencionou designar como sensibilidade e civilização. Nós somos capazes de trazer muito disso para o nosso presente, em forma de sombras, de sonhos, de gestos e de desejos; nós somos capazes de uivar e de urinar para marcar território, de cheirar amantes e de amamentar as crias. E somos capazes de representar ursos em palco, de os revelar humanos que querem ser ursos, como os homens-ursos da Sagração da Primavera, envolvidos no círculo sacrifical da «escolhida». O urso ― o urso de pele e dentes reais ― é um mamífero magnífico, com variações de espécie, movendo-se por habitats que podem ir das regiões árcticas até às florestas temperadas. As espécies que moram nas zonas geladas têm a capacidade de hibernarem, de desacelerarem os seus metabolismos e assim sobreviverem às condições extremas dos invernos árcticos. Devíamos aprender com eles.

O urso é personagem de muitas histórias humanas, incluindo histórias infantis em que normalmente se torna numa criatura «fofinha» e afável. Mas os treinadores de urso sabem que não é assim. Que ele é essencialmente uma fera, poderoso e, por vezes, um superpredador, apenas suplantado por nós próprios, humanos.

No famoso texto de Kleist, Sobre o Teatro de Marionetas, texto tantas vezes discutido e citado na estética e na filosofia do corpo, lá aparece o urso, como exemplo do corpo que age antes (ou sem o concurso) da consciência. O raciocínio de Kleist, formulado na abertura do século XIX, tornar-se-ia tópico de discussão acerca da dança. Na sua visão, a consciência do movimento só está nos seres humanos atrapalhando a sua própria fluidez. Para tanto, Kleist dá o exemplo da marioneta, que é, nas suas palavras, superior ao bailarino justamente porque não pensa, ou, se quisermos, a marioneta tem o equivalente à consciência deslocada para fora do corpo de madeira, isto é, para o marionetista. Também no caso do urso ― o urso que nenhum espadachim consegue ferir ― está (segundo Kleist) o pensamento apagado, ou, melhor, a consciência está deslocada para a animalidade pura, que é por assim dizer uma consciência inconsciente, conduzida por um foco de atenção persistente.

Estocadas e fintas sucederam-se, eu gotejava suor: em vão! Não só o urso, qual o melhor esgrimista do mundo, parava todas as minhas estocadas, mas (e nisso nenhum esgrimista seria capaz de imitá-lo) nem sequer entrava nas fintas: olho nos olhos, como se pudesse ler neles minha alma, permanecia ali parado, a garra erguida, pronta para tudo, se sempre que meus golpes não eram desfechados seriamente, não se movia.

Kleist estava errado, pelo menos parcialmente, mas o seu raciocínio continua hoje a poder estimular uma reflexão acerca da relação do movimento do corpo com o estado animal. Não sei como um urso pensa porque, lamentavelmente, desconheço a fala de um urso. Não obstante, o desconhecimento que tenho da fala do urso não deveria ser suficiente para daí inferir que ele não pensa. Mas sei que um bailarino não precisa de apagar a consciência para se mover, porque a sua dança pode ser exactamente uma intensificação da consciência, a forma de um devir, incluindo um devir animal. O bailarino (chamem-lhe dançarino, se preferirem) move-se «vendo» a consciência após o movimento. O movimento «vê-se» a si mesmo movendo-se. Como um animal. Poder-se-á argumentar que entre consciência e pensamento há que fazer uma distinção e que, portanto, com base nessa distinção, é o pensamento que funciona como obstáculo à fluidez da acção física. Sim, pode acontecer. Mas se acontece (quando acontece), é porque o pensamento vai adiantado ou atrasado, ou «se distrai», ou entra em juízos de valor sobre a própria acção. Ora, este estado de desligamento (adiantamento, atraso, distracção, autocensura, etc.), que tão bem conhecemos, decorre grandemente das circunstâncias que foram moldando comportamentos nas sociedades capitalistas modernas, que foram interrompendo as linhas de continuidade e perturbando os sonhos. Que foram cindindo o continuum selvagem.

Não obstante, o urso ― este urso de que tenho escrito ― é um bicho à nossa escala. Um parente próximo. Somos capazes de ser tão ferozes quanto ele e de caminhar solitariamente pelas tundras (ou por cidades arrasadas). De acasalarmos e de nos magoarmos e de pescar e de sentir o mel das abelhas na língua. De cheirar a terra e a mijo seco.

Não receiem se a vossa sombra for um urso feroz.


Referências

Artaud, Antonin (1948). Pour em Finir avec le Jugement de Dieu. Bibliothèque numérique. ebooks-bnr.com

Kleist, Heinrish Von (1993/2023). Sobre o teatro de marionetes. Trad., apres. e notas de J. Ginsburg. Revista Usp. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.

Martin, Nastassja (2019/2023). Acreditar nas Feras. Lisboa: Antígona.



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