Amar Mundi

Passeando pelas ruas detenho-me no movimento, no ruido e nas luzes, que compõem o cenário da cidade: azáfama, ilusão e pessoas carregadas de embrulhos, que se atropelam e não se olham…

Estamos numa época do ano muito especial: O Natal! O fim do ano aproxima-se e um Novo está a chegar! Tempo de família, de reflexão, de interioridade e de balanços de vida! Tempo, para alguns, de sonho, de poesia e de luz. Tempo, para outros, de trabalho, de (des)alento, de tensão e inquietudes persistentes. Tempo de (re)Nascimento e de vida com esperança? Tempo de gratidão e de renovação de amizades?

Olhando para o mundo em que vivemos, estamos submersos numa incerteza global, de vagas oscilantes de pandemia, de avanços e recuos nas políticas internacionais de Defesa dos Direitos Humanos e em constante interface com realidades e conflitos que manifestam a grandiosidade e o horror da singularidade da condição humana. 

Não estaremos tristes e adoecidos, num esforço de sobrevivência, uma vez que a alienação e estupidez humana abusa e invade prepotentemente a ideia de superação da sua condição de tudo querer e poder? Explorar o máximo da Natureza e dos seus recursos naturais em prole de um consumismo desenfreado como compensação à era do Vazio (Lipovetsky, 1989).

Poderá ser este, um tempo de tolerância ao Outro, de amizade e de consolo ao frio das contradições e dos paradoxos, das falácias desta complexidade humana?

O tempo do Natal chegou e vem colocar-nos perante uma festa histórica do nascimento de Jesus Cristo, o profeta, que para os cristãos é o filho de Deus. Foi considerado o seu dia de nascimento a 25 de dezembro, por ser a data em que os romanos celebravam a festa de solstício de inverno, a noite mais longa do ano.

Vem-me à mente, a ideia de amar mundi de Hannah Arendt, como continuidade da posição socrática de “diálogo entre amigos”.

Propõe à Humanidade, o sentimento de amizade e de pertença a uma comunidade, uma predisposição para a alteridade e para a responsabilidade sobre o Outro. Sentir-se parte integrante como sujeito social pensante, mas proactivo na cidadania, que se deixa implicar na renovação e reconstrução de um mundo melhor, comum e participado, pela relação vincular do direito à diferença.

Hanna Arendt, no século XX, entre duas guerras mundiais, defendeu a ideia de pluralismo, num tempo bárbaro de ódio e destruição, no interior da humanidade e entre povos, que agiam uma guerra civil psicologicamente demolidora. Desenvolvendo um pensamento humanista mais do que filosófico, Arendt transforma os aspectos psicóticos e psicopáticos das políticas totalitárias da época, em pensamentos alfabetizados por crenças grupais de cooperação e reciprocidade, o direito à cidadania, de modo a elaborar aquela tragédia humana.

Amar mundi vem abrir espaço ao sentimento de esperança, num tempo hitleriano que, embora ultrapassado, encontra eco na actualidade, a violência e a brutalidade contra pessoas, famílias, povos e comunidades.

Hoje e sempre continuar-se-á a assistir à tragédia humana do canibalismo social, os mais fortes devorarem os mais fracos. Os mais pobres buscam as riquezas dos mais desenvolvidos e, estes procuram-nos para servirem propósitos, que escapam aos desprotegidos e aos esquecidos ….

A sociedade pós-moderna, complexa e globalizada, em tempo de excessos e abundância, vive intrinsecamente estados de vazio, abandono a perseguição e verifica-se que o êxodo de populações continua a acontecer como há dois mil anos atrás.

O espirito Natalício surge então anualmente, repetidamente, no interior esperançoso do humano, daquele(s) sujeito(s), grupo(s) ou comunidade(s), que procuram um lugar para existirem com dignidade nesta altura do ano, tradicionalmente se assume(m) com uma necessidade de sobrevivência face à destrutividade, colocando-se numa posição de tréguas, e de renovação daquilo que Freud apelidou de pulsão de vida.

O nascimento será, assim, o primado da vida sobre a pulsão de morte.

O nascimento, como evolução geracional constitui um momento especial da vida individual e familiar, uma vez que condensa e materializa o desejo inconsciente de renovar a condição humana um novo grupo familiar: ser(em) e pertencer(em) geradora de nova(s) identidade(s).

Mãe-bebé, a dupla primeva que contêm a presença do pai…

A família resultando desta unidade grupal, não será o espaço de mudança, de renovação identitária para outros estádios de vida, desconhecidos, mas desejados?

Nesta dimensão, a festividade do devir, da família inscrito no tempo e festas de Natal, não serão uma tradição universalizada, que tendo sido instrumentalizada pelos interesses de um sociedade económica, materialista, compulsiva de consumo, apresenta-se como um espaço psíquico grupal de retorno do recalcado, de esperança de melhores tempos, de reinventar o romance histórico e familiar original, da historia do cristianismo, religião monoteísta, na figura de Jesus Cristo como Filho de Deus-Pai, representante universal de suporte emocional face ao desamparo…?

As reuniões familiares, os jantares de amigos, a troca e a surpresa dos presentes, as festas de empresa e das organizações multiplicam-se nesta época do ano, tal como um ritual, que pretende reinventar anualmente as virtudes humanas dessas famílias.

A Psicanálise aceitou e ampliou o seu entendimento acerca da ideia de Deus e tem vindo a compreender que as crenças e as necessidades espirituais são componentes significativas dos seres humanos. Assim, teorizou Freud, o homem, para dar conta dos fenômenos sobre os quais não é capaz de exercer controle algum, humaniza-os. E assim surgem os deuses – respostas práticas e simbólicas diante do imprevisível – e quase que por displicência, aparecem enquanto pais: os criadores da humanidade, e, assim, seus possíveis destruidores. É assim que surge a religião.

A verdade é que, crentes ou não no milagre do nacimento de Jesus Cristo, esse acontecimento histórico reaviva o espírito de humanidade.

Agostinho da Silva, que pensa o divino como mistério, a crença e a razão, quer como aliadas ou como antagónicas e a Ele refere-O da seguinte forma:

(…) De Deus nunca disse nada pela razão muito simples de nada poder dizer. Se em relação a Deus usar um qualquer tipo de linguagem, estou certamente a ofender o essencial (pp.76)

Posso entender aquilo que chamem Deus na medida em que estou silencioso, em que me recuso definir Deus. ( pp.77)

Para que, escutando o silêncio interno, em modo de abertura existencial, ao participarmos nas vivências grupais e familiares possamos aplacar as ansiedades existenciais, nem que seja por uma noite e um dia, talvez para entender melhor o tempo do Natal.

Assim, certamente, o espírito Natalício servirá, magicamente, para resgatar a nossa infância, num encontro de gerações, que podem sublimar as angústias do desamparo e viver em ilusão, um tempo de tréguas de violência humana – saibamos como as crianças, experimentar um tempo de dádiva e de gratidão.

Vivendo estes encontros como um recomeço, as reuniões familiares, quando as há, podem produzir (re)encontros, fazer diálogos adiados e, até a projecção no futuro de novos presépios, que inscrevam o desejo de mundos melhores.

Boas Festas e Bom Ano 2022 para todos!

Referências: Agostinho da Silva (1988). Dispersos. IDENTIDADE. Cultura Portuguesa. ICLP.ME. Aguiar, O. A. (2010). A amizade como amor mundi em Hannah Arendt. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 19, n. 28, p. 131-144. Lipovetsky, G. (1989). A Era do Vazio. Lisboa: Relógio d’Água.

Imagem: Árvore de Natal do Terreiro do Paço, por Câmara Municipal de Lisboa

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