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Ajuda Psicológica nas Universidades





Foi há 40 anos que, com muito esforço e dedicação, o apoio psicológico universitário começou em Portugal. Tendo passado por várias vicissitudes, parece existir atualmente - em particular na pós-pandemia, com o aumento do sofrimento psicológico nos jovens e mais foco na saúde mental - uma maior consciência da importância da existência de um serviço de apoio psicológico nas universidades.


O apoio psicológico no contexto universitário começou em Portugal em 1983 na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, sendo gradualmente difundido por várias outras universidades (Instituto Superior Técnico, ISCTE, etc).

Graça Figueiredo Dias, psicoterapeuta de orientação psicodinâmica e doutorada em Psicologia e nessa altura a lecionar na FCT, foi a pioneira em Portugal que lutou para mostrar a pertinência do Apoio Psicológico em jovens adultos e em contexto universitário, tendo conseguido o criar o GAPA - Gabinete de Apoio Psicológico para Alunos:

“Recordo que, quando remodelou o gabinete da Direção, o Prof Leopoldo Guimarães me ofereceu um candeeiro para colocar numa mesa baixa que ficava entre dois sofás muito velhos, onde eu realizava o atendimento. O mobiliário do GAPA sofreu posteriormente muitos melhoramentos, mas nunca abdiquei desse candeeiro que simbolizava o apoio da Direção e a confiança que depositara em mim” (p. 13) *


Se a criação do GAPA começa no início dos anos 80 com um atendimento a apenas seis estudantes, altura em que os alunos receavam serem vistos como “estranhos” ou “doentes”, três anos depois “já possuía gabinete de atendimento a tempo inteiro, telefone e apoio secretarial” (p. 13)

Foi uma construção gradual, com visitas a Serviços de Ajuda Psicológica no Ensino Superior nos USA e Reino Unido, pioneiros neste tipo de intervenção, e a criação de projetos de investigação como o “Psicoterapia Breve em Meio Universitário”, financiados pela Fundação Calouste Gulbenkian. Nos anos 90 a intervenção do GAPA já funcionava com três gabinetes e atendia cerca de 3% dos estudantes da FCT, incluía estagiários de Psicologia, e elaborara uma página na Internet.


Gradualmente, com base (1) no estudo aprofundado da teoria psicanalítica sobre as tarefas desenvolvimentais na transição da adolescência para a vida adulta (Erikson, Sullivan, Kohut) e nas teorias da vinculação (Bowlby), assim como (2) na investigação empírica realizada no GAPA e (3) na reflexão sobre a prática clínica, GFD elaborou um modelo específico de intervenção de ajuda psicológica junto dos estudantes, que se insere dentro do modelo de terapia breve psicodinâmica: uma intervenção baseada na teoria psicanalítica, onde “se privilegia ajudar o cliente a ter maior compreensão da relação consigo próprio, com os outros, e com o mundo, tendo em conta a sua história de vida e as suas circunstâncias” (p. 86), com um espaço de tempo limitado (cerca de um ano letivo) e focalizada nas dificuldades que o jovem traz.

A escolha do modelo psicanalítico está relacionada com a perspetiva teórica e prática clínica da autora. A opção pela Terapia Breve, porque a personalidade ainda não consolidada nesta fase do desenvolvimento torna possível maiores transformações num curto espaço de tempo, evitando-se também que o Serviço fique lotado e sem abertura para novos estudantes (exceção feita em alguns casos, cujas dificuldades psíquicas, necessitavam de uma psicoterapia mais alargada, e tal foi por vezes possível).


Efetivamente, a prática clínica no GAPA acolheu jovens “em situação de grande sofrimento, frequentemente com histórias de vida com vicissitudes difíceis, que em poucas sessões pareciam ter recuperado a energia e o bem-estar” (p. 87). Além disso, estudos exploratórios permitiram confirmar sucessivamente este modelo de intervenção, fazendo sobressair como “a maioria dos estudantes se tinha sentido ajudada, valorizando em especial o aumento do autoconhecimento e a clarificação geral de objetivos de vida e valores.” (p. 67).


A maioria dos estudantes que recorria ao GAPA apresentavam-se deprimidos ou ansiosos, com a autoconfiança e autoestima abaladas, confusos quando ao seu futuro, sendo o pedido de ajuda desencadeado pela quebra de um relacionamento amoroso ou dificuldades em estabelecê-lo, reprovações nos exames ou ansiedade face a estes, dificuldade de concentração nos estudos e dúvidas sobre as capacidades e sobre o curso escolhido, ou problemas nas relações com os pais. Estas dificuldades eram compreendidas à luz das tarefas psicológicas normativas desenvolvimentais da juventude, apenas ampliadas por uma história de vida difícil, ambientes familiares disfuncionais e condições socioculturais mais desfavorecidas.


Os estudos empíricos realizados a par da atividade clínica mostraram como sucesso académico e bem-estar psicológico estão profundamente intrincados: mais bem-estar psicológico e autoconhecimento conduz a uma melhoria académica, que, por sua vez, reforça as próprias questões desenvolvimentais, como a Consolidação da Autoestima (Kohut), a Autonomia (Bowlby), o Encontro do Par amoroso (Sullivan), a Construção da Identidade (Erikson).


Passados 40 anos desde a criação do GAPA, resolvemos falar com Júlia Murta, psicóloga clínica e psicoterapeuta de orientação psicanalítica, a trabalhar no GAPA desde 2005, que se cruzou e “formou” com GFD, antes desta se reformar definitivamente.


Nós - Que problemáticas é que os estudantes abordam mais quando pedem apoio psicológico?

Júlia Murta - A entrada na universidade constitui um desafio muito particular a vários níveis. O estudante encontra-se numa transição, entre o fim da adolescência e a idade adulta, entre o secundário e o mercado de trabalho, num contexto particularmente estimulante e de grande exigência. É uma fase de reorganização psíquica (com a separação das figuras parentais e a consolidação da identidade) e de construção progressiva de uma maior autonomia. As problemáticas derivam muito destas questões.

O espaço faculdade permite ir experimentando novas responsabilidades com graus de independência cada vez maiores, no caminho para a vida adulta. Como referem os alunos, a faculdade é como um free trail (quando é dado um tempo de jogo gratuito), em que nos dão a possibilidade de ir treinando a vida adulta, progressivamente – até o jogo ser a sério!

É um período de grande potencial de desenvolvimento, mas é também propicio a sofrimento e angústia, podendo, em situações de maior fragilidade, desencadear sintomas psicopatológicos.

Os motivos dos pedidos variam em todas as fases do percurso académico. Diria que nos primeiros anos de faculdade o mal-estar psicológico é desencadeado pelas dificuldades iniciais de integração na faculdade e pelas dúvidas vocacionais. No final do percurso colocam-se as inseguranças face ao futuro e ao mercado de trabalho sendo reevocadas as dificuldades de separação.

Há também os pedidos relacionados com acontecimentos de vida: o fim de uma relação amorosa, a morte de familiares próximos ou situações de fragilidade económica.

O que verificamos, no geral, é que a ansiedade é transversal a todos os pedidos. Há casos de depressão, de ideação suicida e de isolamento. Diria que as problemáticas não são diferentes do que eram há anos, mas a sintomatologia é mais grave.

Um aspecto que se mantém ao longo dos anos é o facto da maioria dos pedidos de ajuda ser de estudantes que se encontram no início e no final do percurso académico - nas transições, períodos de crise e de mudança, citando Antonio Gramsci (1891 – 1937) Quando o antigo já não existe e o novo ainda não se estruturou é que se criam os monstros.


N - Como tem sido a sua experiência?

J - Tem sido muito gratificante. É uma população interessante e a diversidade de casos é grande. Os estudantes vivem um tempo privilegiado de exploração de si próprios e do mundo. Por outro lado, os processos de mudança e transformação nesta idade são mais rápidos, como dizia a Professora Graça Figueiredo Dias, o desenvolvimento desbloqueia, principalmente em casos sem sintomatologia rígida.

No entanto, há questões que me trazem grande preocupação. Há anos atrás as situações de crise manifestavam-se pela tristeza, pela procrastinação e sobretudo por tempos de paragem e desmotivação. Actualmente, a queixa principal é não conseguir parar. A quantidade e exigência do trabalho académico parece colocar os estudantes num lugar onde só é viável dar resposta, reagir, numa ausência de tempo que possibilite o pensamento. A velocidade é assombrosa e vêem-se na impossibilidade de dar voz às suas angústias, dúvidas, incertezas e motivações. A reação imediata substitui-se à acção pensada. A pressão invade a vida quotidiana e parece aprisionar a experiência subjectiva. O tempo da resposta imediata, o tempo “executivo”, sobrepõe-se ao tempo subjetivo, o da aprendizagem, do amadurecimento e da experiência vivida.

Hoje os alunos são mais activos e reivindicativos. No confinamento exigiram mais psicólogos para a faculdade, criaram Núcleos (o Núcleo de Literatura, o Núcleo de Cinema, O Núcleo de Teatro, o Núcleo de Aventura) e fizeram parcerias com empresas para conseguir computadores para colegas em dificuldades. No entanto, queixam-se da falta de tempo para viverem experiências de relação com os colegas e consigo próprios, tempos de criação de novas referências, tempos de sonhos/projecto (Coimbra de Matos, 2019), tempos que promovam uma espécie de acervo de humanidade próprio (Leopold Nosek, 2022) que permita lidar com a adversidade e a imprevisibilidade do mundo.


N - Há uma prevalência de estudantes que vivem longe das suas famílias?

J - Não posso dizer que são a maioria, mas estes alunos têm uma pressão acrescida com o aumento de responsabilidades diária e com o afastamento real dos pais. Há estudos que mostram que os alunos que se encontram em casa dos pais manifestam mais facilidade nas relações sociais, provavelmente mantêm uma segurança que pode ser abalada quando se sai de casa. Estes alunos merecem uma atenção acrescida porque podem sentir-se sozinhos e desamparados.


N - Qual é o modelo teórico-clinico de referência às psicoterapias desenvolvidas nas Universidades?

J - Existe uma grande diversidade de intervenções nas Universidades. Na NOVAFCT o quadro de leitura é o psicodinâmico, mesmo em seguimentos mais breves.

A Professora Doutora Graça Figueiredo Dias (pioneira em Portugal na criação do primeiro Gabinete de Psicologia numa Faculdade, o da NOVAFCT) deixou-nos muito trabalho realizado na área da Psicoterapia Psicodinâmica Breve.


N - As psicoterapias têm algum tempo limitado?

A pressão exercida nos profissionais pelo aumento do número de pedidos tem constituído uma dificuldade. No entanto, a duração e frequência dos seguimentos depende muito da situação clínica do aluno.


N - Neste período pós pandemia há mais pedidos de apoio psicoterapêutico?

J - Comparando o ano lectivo de 2018/2019 com 2021/2022 houve um aumento de cerca de 35% do número de pedidos.

A pandemia tornou mais óbvias as fragilidades existentes no domínio da saúde mental. Não foi surpresa o sofrimento psicológico que se observou, era previsível que, numa situação extrema, pudessem surgir grandes dificuldades.

A Universidade teve um papel fundamental para os jovens durante o período de confinamento, fê-los sentir que a vida não parou e que o seu percurso continuou, apesar dos constrangimentos. Por outro lado, o isolamento social teve um grande impacto pois a relação com os colegas e com os professores tem um papel crucial no desenvolvimento, na segurança e na construção da autonomia nesta faixa etária. Com a pandemia foram obrigados a lidar sozinhos com as dificuldades, longe das referências habituais que lhes permitiam algum equilíbrio

O regresso ou permanência prolongada em casa, com impedimentos de saídas e de interações reais com os amigos, foi sentido, por vezes, como uma regressão a uma dependência mais infantil, uma rutura num percurso de autonomia que se havia iniciado, surgiu a dúvida sobre o que conquistaram.

Todas estas mudanças e indefinições foram desorganizadoras, este tempo foi traumático, excessivo e distendido. Para um jovem que vive um período de transição e transformação este tempo pode ser vivido como uma experiência de deriva e caos.

Contudo também houve alunos que exploraram a criatividade, que abriram alternativas e fizeram novos planos, que começaram a compor música, a desenhar ou a escrever, que pensaram novos projetos, que mudaram de curso e iniciaram uma nova relação amorosa.


Para terminar, Júlia informou-nos como este aumento de casos nos últimos anos, consequência da pandemia Covid 19, mas também da vida moderna (veloz, digital, competitiva), levou o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior a criar uma comissão técnica, que reconheceu a importância da intervenção psicológica no Ensino Superior e irá publicar um documento a recomendar a criação de serviços de apoio psicológico em todas as faculdades e um investimento maior nos que já existem.


* Referência bibliográfica: Dias, G.F. (2006). “Apoio Psicológico a Jovens do ensino superior – métodos, técnicas e experiências”. ASA Edições.


Imagem: google (Blog Genera)


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