A Herança





Herdamos bens ou dívidas, riquezas ou maleitas: sejam os tais traços característicos de um avô, ou a fortuna daquela tia. É condição inerente à nossa existência, tal como o termo jurídico herdeiro forçado legitima que qualquer um, independentemente da sua vontade ou direito legal, venha a herdar.


A história da psicanálise está repleta de episódios que ilustram bem as questões controversas ligadas às heranças no seio de uma família. Tornou-se evidente que Freud, Pai da psicanálise, lutou por manter vivo o pensamento psicanalítico, cujo testemunho tentou passar aos seus discípulos. A preocupação com os herdeiros da psicanálise norteou o seu pensamento e conduziu as suas acções, resultando em quebras de relações de amizade com discípulos que anteriormente abraçara. Freud desconfiava que a psicanálise pudesse vir a soçobrar com teorias que não obtinham o seu acordo, vistas por si como desviantes do pensamento psicanalítico e científico que defendia. Anna Freud, sua filha, é um bom exemplo dos esforços de Freud em manter alguém próximo de si, do seu próprio sangue, como sucessora do pensamento psicanalítico. Após a morte de Freud, em 1938, a psicanálise entra numa fase de controvérsias (1941-1945), gerando duas grandes correntes psicanalíticas, às quais veio posteriormente juntar-se um terceiro grupo, o dos “independentes”. Apesar das evidentes diferenças teórico-clínicas, é de sublinhar que cada uma das correntes se proclamava legítima herdeira sucessória do pensamento original de Freud, e por conseguinte, da Psicanálise.


Não se conhece nenhum registo histórico de que Freud tenha deixado um testamento, mas na sua obra encontramos claras menções sobre a sua última vontade: a de que a psicanálise se desenvolvesse por meio da obra que deixava. Após Freud outras gerações vieram, contribuindo para a construção de novos alicerces do edifício psicanalítico. Interrogamos-nos o que Freud, pai e fundador, pensaria do modo como a psicanálise se difundiu e evoluiu, se concordaria ou protestaria, possivelmente escrevendo um bom número de missivas onde exporia, com a veemência que o caracterizava, as suas formulações originais. Como autor e fundador, talvez Freud se tenha excedido na protecção desmedida com que defendera a psicanálise contra o que considerava serem perigosos desvios à sua teoria. Como Pai, Freud ofereceu, numa generosa dádiva à humanidade, a possibilidade de cada sujeito escolher enveredar por um caminho único e singular de descoberta de si mesmo. A sua famosa expressão “análise interminável” talvez seja o melhor legado que nos deixou, representando o movimento infinito, igualmente presente na condição perpétua da humanidade.


A psicanálise continua viva, além da morte de quem a fez nascer. Do pensamento de um único homem surgiu a possibilidade de cada um se pensar a si mesmo, e esse terá sido o maior presente que pudemos herdar. A transmissão geracional é caracterizada por uma interminável cadência de sucessões, constituída por nascimentos e mortes. Dos lutos geram-se novas vidas. De novas vidas surgem novas ideias e ideais que norteiam e vêem dar um sentido à existência humana. O envelhecimento e a consequente morte implicam, como a psicanálise também nos ensinou, enfrentar a nossa própria finitude, como tão bem nos recorda Tolentino Mendonça (1): “… a persistência da recordação dos nossos mortos humaniza-nos. Não nos desembaraçamos deles, porque isso seria esvaziar-nos de nós próprios. Somos também os nossos mortos”. Não será o que deixamos construído, e que legamos a quem nos sucede, que perpetua a memória da nossa existência? Freud está vivo, bem como muitos outros que deixaram inscrito na casa psicanalítica o seu testemunho. Os que ficam terão como destino inevitável cuidar da herança, ao mesmo tempo que, como irmãos, se amparam mutuamente no lamento sobre os que já cá não estão.


(1) Semanário Expresso nº 2610, 04/11/2022


Imagem: Sabonete à venda no Freud Museum, em Londres