A Banalização da Imagem, a Banalização do Mal




Nada de novo ao afirmar que a nossa época está dominada pela imagem - na comunicação, na política, na Arte e até na literatura. A simples mensagem deve ser decorada (enriquecida ?) pela imagem; oferecem-nos bonequinhos expressivos em fila para escolher, coraçõezinhos vermelhos para as tornar ternurentas, há fotos fáceis de tirar e enviar que falam por si. Os jovens escondem-se atrás de “smartphones” que percorrem, alheados da conversa desinteressante dos adultos.

As palavras que constroem o pensamento são cada vez mais raras; o vocabulário empobrece-se, as descrições são “chatas”, os diálogos monossilábicos, lê-se pouco e até consta que os livros vão desaparecer e a literatura exige separadores com imagens; os Jornais entraram em falência e só têm saída se forem de qualidade, ou seja ,volumosos, em cadernos de opinião e metidos em sacos de papel com pegas; os Regionais desapareceram, as Revistas só interessam se documentadas com escândalos apanhados pelos paparzazzi ou famílias reais disponíveis a mostrar os seus segredos e tesouros.

A TV e os telemóveis são instrumentos tecnológicos multiusos - notícias, calendário, relógio, redes sociais, permitem o contato à distância; a pandemia ajudou a difundir o teletrabalho, etc.


A revolução que as novas tecnologias provocou só terá paralelo na provocada pela invenção da Imprensa (Gotemberg). Na arte onde a imagem sempre se impôs, a Fotografia ganhou terreno, e o Abstracionismo é uma derivação que veio substituir o Figurativo, mas que ainda assim vale pelo impato estétio visual que provoca..

Os instrumentos ópticos ganharam tal aperfeiçoamento, que permitem abranger grandes espaços e distâncias interplanetárias. A robótica vai-nos dispensando do esforço físico e paradoxalmente o homem torna-se mais sedentário e todavia chega mais depressa e mais longe onde quer.

A obesidade tem aumentado assim como a arterioesclerose, mas os avanços da MEDICINA contribuíram para prolongar a longevidade saudável..

A MEDICINA está cada vez mais tecnológica, o médico está a transformar-se num engenheiro que explora e repara o aparelho humano; A relação médico-doente está a despersonalizar-se. Fazem-se investigações para mexer no genoma humano, o ADN nem é assim tão diferente do de outros seres vivos, e qualquer dia temos um NOBEL a permitir-nos UM HOMEM NOVO, capaz de sobreviver noutro planeta, já que fomos capazes de dar cabo do nosso PLANETA. A ciência ultrapassou a ficção científica e só temos que treinar a imponderabilidade.


Não será na nossa geração,mas para lá caminhamos triunfantes e alheios aos avisos e previsões que a própria CIÊNCIA divulga..

Absorvidos nos benefícios da saúde e atordoados pela rapidez com que as mudanças ocorrem, não valorizamos os avisos das ENTIDADES INTERNACIONAIS (ONU,OMS, EU) que nós próprios criámos. Até o perigo nuclear que a Guerra Fria controlou durante 60 anos parece atenuado, e anunciam-se perigos nucleares parcelares nesta absurda guerra da RÚSSIA contra a UCRÂNIA. Paira sobre nós uma ameaça APOCALÍTICA (J. BIDEN avisou).

Os lideres actuais continuam dominados pela ambição expansionista e as guerras absurdas continuam em pleno sec. XXI ,como se a HUMANIDADE tivesse esquecido os horrores e o sofrimento do passado , nem a CIÊNCIA, NEM A HISTÓRIA , NEM A POLÍTICA nos valem !

Nós vulgares habitantes da TERRA, assistimos no dia-a dia que aTV nos mostra, ao espetáculo terrífico da Guerra e das Calamidades e nos cria a ilusão que tudo se passa ao longe, não nos diz respeito, não fizemos mal a ninguém para ter que presenciar as imagens que nos entram pela casa e pelos olhos dentro. Pior ainda não fizemos mal nem temos possibilidade de o fazer parar. Desligar a TV é a única coisa que podemos fazer- NÃO VER !

Mas sabemos que isso está a acontecer, não é uma ficção, não é um filme – vemos o espetáculo horrível de pessoas a chorar, a gritar, a morrer inocentes e desprevenidas, de crianças perdidas e pais ansiosos, vemos casas destruídas, vemos bombardeamentos em direto, vemos incêndios e explosões...

O pivot da TV avisa que as imagens podem ser chocantes, mas continua a mostrar o horrível e dali passa a um anuncio publicitário, como para fazer esquecer, como se todas as imagens tivessem o mesmo valor, e assim se banaliza a imagem, se banaliza o mal , o “perfume”que não se cheira, a velocidade agradável do elegante automóvel que não se goza, o choro de uma mãe que segura o filho morto ou mostra a casa desfeita por uma bomba ... é tudo igual ,tudo distante e virtual ,não nos diz respeito. Cria-se uma certa insensibilidade ,uma certa indiferença, um olhar de soslaio que não nos dá tempo ao “perceber e sentir compaixão “

O enorme absurdo de avisar que se vai mostrar o horrível e aconselhar a não ver... para não chorar , para não se arrepiar,para não se revoltar ,para não pensar ... que apelo à indiferença !

Faz-me lembrar aquela anedota de um débil mental, numa viagem de avião em que se falava no medo que o avião caísse..,ter dito : “.Eu não tenho medo , o avião não é meu !”

Aquilo que nos mostram é lá longe, não me diz respeito !


Este domínio da imagem na comunicação conduz à superficialidade, dos afetos e do pensar a emoção, à banalização do mal,. A PSICANÁLISE ensina-nos que é importante sentir e pensar sobre a emoção, porque o conhecimento só é completo se simultaneamente pensarmos o que sentimos e nos identificarmos com o que o outro sente e pensa, ser empático.

A palavra , a expressão do sofrimento, as lágrimas , o abraço solidário do outro, a revolta, a compaixão , estão mais próximos do corpo , têm mais realidade. A imagem é fugaz,passa depressa.


GONÇALO M. TAVARES dizia a propósito (Expresso, Out /2022): "mais valia ser cego", mas eu digo que ele escreveu sobre o que viu, logo, pensou, e desligou a TV. É uma hipótese, visto que é difícil mudar o homem, mesmo aparentemente civilizado. É a pulsão de Morte que o habita.